A brusca ascensão da Mota Engil

Tiago Esteves
O que se faz às acções de uma empresa depois de elas subirem 125% em meio ano? Eis um dilema com que nenhum accionista se importa de lidar… Mas nem por isso deixa de ser um dilema!
Na minha última análise à Mota Engil, há cerca de nove meses, reinava o pessimismo e a descrença no mercado português em geral e neste título em particular. Felizmente neste espaço de tempo tudo se alterou e actualmente estamos mais perto da euforia do que do blood on the streets. Este comportamento quase anormal para o mercado português da Mota Engil é um claro sinal disso. Uma subida fulgorante é geralmente acompanhada por padrões de consolidação que representam tomadas de mais-valias, e ainda bem que assim acontece. Quando num espaço de 6 meses temos um único padrão de consolidação de movimento (representado por um H&S de continuação) digno desse nome e dois micro-pendentes, poderemos vir a ter problemas. E com problemas entenda-se uma correcção mais brusca da tendência principal. Depois da duplicação do valor unitário não restam já grandes dúvidas que este título se encontra em Bull Mode, hajam ou não ainda dúvidas quanto à possibilidade de o PSI estar numa  Bull Trap. 


A inexistência de movimentos correctivos dificulta a colocação de stops, o que leva muitas vezes à venda impulsiva e ao corte dos ganhos. É importante ter presente o velho adágio de Wall Street que eu tanto aprecio: Cut the losses, let the profits run. Eliminem-se os trades perdedores o mais cedo possível e permita-se aos ganhadores tomarem a liberdade necessária para compensarem o risco de exposição aos mercados financeiros. Infelizmente é mais fácil justificar interiormente a manutenção de um trade perdedor do que de um trade ganhador e por esse motivo esta regra tão simples é quebrada vezes sem conta.

Isto para dizer o quê? Apesar de estarmos com uma subida demasiado acentuada, apesar de ser insustentável manter esta trajectória ascendente durante muito tempo, estes motivos por si só não deverão ser suficientes para levar à venda. Uma tomada parcial de mais-valias será aceitável, tanto do ponto de vista financeiro como do importante ponto de vista psicológico. Vender totalmente sem que surjam sinais de fraqueza poderá levar-nos a voltar a comprar apressadamente se o título subir mais 10 ou 15%, controlados pelo remorso e pela ambição desmedida. Para que, por outro lado, esta ambição não nos apanhe do lado do excesso de confiança, será fundamental manter uma posição de prudência. Nada sobe para sempre e ninguém sabe se o ponto de inversão não será a vela de amanhã.

Tracei uma retracção de Fibonacci no gráfico para nos dar a ideia de quanto poderiam cair as acções da Mota Engil sem que isso constituísse um desvio à tendência dominante. Apesar de uma queda até aos 1.73€  não estar fora de questão, será de esperar que o título volte a ganhar força ascendente apenas com uma retracção à primeira zona de reacção – neste caso, a preços de hoje, situada nos 1,91€. Reforçando a ideia inicial, seria bastante positivo que esta retracção chegasse o mais cedo possível. Só a aproximação ao projecto de LT, assinalada a vermelho, permitirá uma amplitude suficiente para suportar um crescimento de longo prazo.

Apesar de eu não ter por hábito personificar as análises com os meus trades, neste caso vou abrir uma excepção, até porque foi um ajuste nesta estratégia que me levou a escrever este post. Amanhã irei vender 60% da minha posição. Esta venda permitir-me-à aguardar pacientemente por uma retracção para voltar a fazer um reforço, se for caso disso. A manutenção de 40% da posição permite-me continuar a acompanhar os movimentos do título sem correr o risco de ser impelido para uma abertura de posição menos racional, pois mesmo que a subida se mantenha eu continuarei a ganhar com isso. E confesso que o reajuste de posição me vem trazer alguma tranquilidade, já que o tamanho da posição começava a ultrapassar a minha zona de conforto.

Para finalizar, que o post já vai longo (as minhas expectativas relativamente aos fundamentais da empresa e à macro-economia ficam para outra vez), deixo uma frase para reflexão: Não há melhor tradição do que vender a euforia e comprar a depressão.

Nota pessoal: Possuo actualmente acções da Mota Engil, pelo que mesmo inadvertidamente a minha opinião poderá estar condicionada



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