A falácia dos combustiveis (2) – E se pudesse garantir o actual preço do combustível para o resto do ano?

Tiago Esteves
A flutuação do preço do petróleo é uma das maiores dores de cabeça para
quem depende de automóvel próprio para se deslocar diariamente.
Estima-se que o gasto dos Portugueses com combustíveis ronde os 5-10% do
orçamento familiar, sendo este impacto mais sentido nos agregados com
rendimentos inferiores. A oscilação dos preços em bomba representa assim
um alívio orçamental em momentos como o actual, e uma pressão extra nos
picos de valorização. Ora, como tive oportunidade de defender e
explicar na parte 1 desta
série de artigos sobre o preço dos combustíveis, acredito que possamos
estar a aproximar-nos de um valor mínimo no preço em bomba. O ritmo de
descidas semelhantes à de 4 cêntimos ocorrida hoje poderá inverter-se
nas próximas semanas, à medida que a OPEP alinha a estratégia de
estabilização de preço com os produtores. Se assim for, seria fantástico
que nos pudéssemos proteger convenientemente, e aproveitar a
oportunidade de adquirir o combustível de que iremos necessitar durante o
resto do ano a preços próximos dos actuais. Boas notícias, é possível
(se estiver com pressa, salte já para o ponto 3)! À primeira
vista é um processo complexo, mas a poupança potencial situar-se-à em
redor dos 500€ para o agregado comum, pelo que vale a pena fazer uma
leitura aprofundada.
1 – Os mercados financeiros como “seguro” contra flutuações
Ao contrário do que se pensa e conta, os mercados financeiros não
existem para que os especuladores sem coração ganhem rios de dinheiro à
custa de bens essenciais. Uma parte dos mercados financeiros, o mercado
de futuros, tem como princípio fundamental precisamente a defesa e
fixação de preços para um momento futuro. Imaginem uma empresa de
transportes que firma um contrato no início de Janeiro para o transporte
de 1000 cargas durante o ano, ao preço de 100€ por carga. No início de
Janeiro, o custo de combustível por carga representa 50€. Os restantes
custos representam mais 40€. Resta uma margem de lucro de 10€. E se os
combustíveis começam a subir, e em vez de 50€ por carga passam a
representar 65€? A empresa passaria automaticamente a ter um prejuízo de
5€ por carga, o que é inadmissível. O que é feito é “comprar” desde
logo em Janeiro o equivalente ao combustível necessário para o resto do
período de contrato no mercado de futuros (através de um contrato de
futuros), impedindo que essa variável se torne um embaraço. Se o preço
em bomba diminuir entretanto, o contrato de futuros diminui de valor mas
o gasto em bomba é menor. Se o preço em bomba subir e o gasto com
combustíveis aumentar, o contrato de futuros aumenta também de valor em
igual proporção. O objectivo é precisamente neutralizar quaisquer
flutuações no preço ao longo do período de contrato. Não há actualmente
empresas profissionais dignas dessa designação que não se protejam de
antemão de tais flutuações. Ao iniciar-se um negócio, as variáveis em
jogo deverão ser reduzidas ao core do negócio. Quanto menor for a
quantidade de variáveis, menos arriscado se torna o negócio. E exemplos
semelhantes existem também para empresas de construção, de agricultura,
etc, etc… Por curiosidade, este processo tem a designação de mecanismo
de hedging.  Aprofundemos então a forma de utilizar esse mecanismo.
2 – As variáveis que compõem os preços de gasóleo e gasolina
Além das variáveis fixas que já foram analisadas no primeiro artigo
(nomeadamente impostos, e custos de transporte e armazenamento), há duas
variáveis de peso que requerem a nossa atenção. A matéria-prima e a
moeda. Ou seja, o petróleo e o par euro/dólar. A flutuação de qualquer
uma destas duas variáveis influi no preço em bomba. Devido à maior
correlação com o preço em bomba, o ideal será deixar o crude/brent à
parte e saltar para a protecção com a matéria-prima transformada: a
gasolina e o diesel. Ambos são (à semelhança do que se passa com o
petróleo) transaccionados no mercado de futuros, e a sua correlação com o
preço em bomba é superior à da matéria-prima de base. Permite também
que cada consumidor faça uma adaptação o mais próxima possível à sua
realidade individual, personalizando-se assim o mecanismo de hedging
para donos de automóveis a gasolina e a gasóleo. Por ser mais fácil
encontrar para negociação o heating oil (gasóleo de aquecimento) do que o
diesel, e dada a correlação de 95% entre ambos, utilizá-lo-emos em
substituição do diesel nos exemplos. Quem tiver acesso à negociação de
diesel deve utilizá-lo directamente.
3 – Como pode então o comum cidadão recorrer a este processo?
Em primeiro lugar, temos de
conhecer as nossas necessidades. No meu caso pessoal, a combinação das
viaturas do agregado familiar fazem um total de cerca de 180 quilómetros
diários. A um consumo médio de 6,5 litros aos 100, o meu consumo de
combustível ronda os 4270 litros por ano.
Em
segundo lugar, temos de converter os litros para galões (unidade de
negociação destes instrumentos financeiros). Correspondendo cada galão a
3,78 litros, teremos de comprar 1128 galões (basta multiplicar o número
de litros por 0,2642) de combustível. 
O
terceiro passo implica ir ao mercado adquirir este número de galões
através do CFD sobre o futuro da matéria-prima. O tamanho do contrato
pode depender do nosso intermediário financeiro. Na Activtrades, cada
contrato completo de gasóleo corresponde a 21 mil galões. Assim, teremos
de comprar 0,05 contratos para obter os 1128 galões acima indicados
(1128/21000). Para fazer o mesmo em relação à gasolina, basta fazer a
adaptação dos valores (ver documento Excel abaixo).
Estes
três passos representam os fundamentais do processo. Seguindo-os,
conseguimos desde logo obter uma cobertura superior a 80% da flutuação.
O
quarto passo é opcional, já que implica neutralizar as flutuações do
dólar. Para valores acima de 1000 euros de investimento a protecção deve
no entanto ser feita, já que aumenta a precisão do processo. Para
valores abaixo dessa marca, não é possível fazer tal cobertura. Para o
nosso exemplo, temos 1059 dólares de exposição a esta moeda. O valor de
exposição representa a multiplicação do número de galões (1128) pela
cotação actual do activo ($0,94). Se temos um activo que valoriza com a
valorização do dólar, para efeitos de cobertura necessitamos de outro
que desvalorize em igual proporção (e vice-versa). Teremos então de ir
ao mercado de Forex abrir uma posição em EUR/USD, comprando o
equivalente em Euros a esse valor de dólares. Correspondendo 1 euro a
1,09 dólares à data de hoje, necessitamos de comprar 970€. Como cada
lote de EUR/USD corresponde a 100.000€, necessitamos então de comprar
0,01 lotes de EUR/USD para fazer uma cobertura aproximada ao valor total
da nossa exposição
Com
o passo anterior terminamos o processo de hedging. Falta ainda, no
entanto, proceder à manutenção da posição. Esta posição tem de ir sendo
ajustada a cada 2-3 meses, não só porque o contrato de gasóleo e
gasolina vai fechando automaticamente mas sobretudo porque a
regularidade do ajuste é directamente proporcional à flutuação de preço
em bomba. De cada vez que se faz o reajuste, o número de litros até ao
final do ano (ou até ao final do período que se pretenda cobrir) deverá
ser recalculado para reajustar o processo à realidade. Se, por exemplo,
nos primeiros 2 meses o preço em bomba subir 10%, a parte da posição que
já não iremos reabrir já nos terá permitido ganhar esses 10% que
pagamos a mais em bomba. 
Para auxiliar os cálculos, desenvolvi um ficheiro de Excel que poderá ser transferido através do link abaixo.
Para finalizar, alguns pressupostos

É importante ter a noção de que este mecanismo não é perfeito nem
milimétrico. É, sim, um seguro por grosso que permite reduzir a
esmagadora maioria da força da flutuação;

Existe um valor mínimo em termos de necessidade de combustível para que
este processo funcione. Este valor ronda os 800 litros de gasóleo e os
1400 de gasolina. Pode, no entanto, aumentar o número de dias de
cobertura para compensar um consumo mais baixo;

A oscilação do valor de IVA não é reflectida. Complicaria ainda mais os
cálculos e a explicação, e o seu não englobamento acaba por ser um mal
menor. Recordo que o grosso do imposto é relativo a ISP, e esse é um
valor fixo;
– Cada
gasolineira tem uma margem de lucro mais ou menos fixa (que pode
representar uma flutuação de até 30 cêntimos por litro). Para que isto
resulte, é importante que se abasteça sempre no mesmo local ou em locais
com um preço mais baixo do que o local habitual.

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Pretende ver o processo esclarecido
em maior detalhe?
O Workshop de Introdução aos Mercados Financeiros que
terá lugar no próximo dia 6 de Fevereiro em Lisboa irá contar com um
capítulo especial relativo a este tema.

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  • Anónimo 18 / 01 / 2016 Reply

    Excelente artigo Tiago, como sempre nos tens habituado. Mas queria te fazer uma questão que tem indirectamente haver com este assunto: A Mota Engil ao longo dos últimos dias tem caído fortemente mas hoje fez-se notar de longe. Na tua opinião achas este movimento normal ou achas que já temos algumas razões para estar a temer que já há grandes casas de investimento que sabem mais que o investidor comum e normal (inside information)???
    Não te estou a pedir um conselho de compra ou venda, mas apenas uma opinião.
    Cumprimentos,
    Ricardo Bastos

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 18 / 01 / 2016 Reply

    Olá Ricardo, boa tarde.
    Farei esta semana um update à Mota Engil. Desconfio sempre de movimentos muito fortes, sobretudo numa empresa que tem alguns telhados de vidro. Geralmente têm um motivo por detrás. Neste caso em concreto, sinceramente espero que não. Se a Mota Engil tivesse capacidade para manter o pagamento de dívida (é actualmente o maior dos seus problemas) e de distribuir dividendo a uma yield de 8,5%, é uma interessantíssima oportunidade para uma eventual inversão de mercado. Mas são dois enormes "Ses", e as coisas não têm estado fáceis no PSI20. Deixa-me olhar melhor para ela…
    Cumprimentos,
    Tiago

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