A falácia dos combustíveis – Porque não desce mais o preço em bomba?

Tiago Esteves
Muito se tem falado do preço dos combustíveis e da falta de acompanhamento do preço em bomba no que ao movimento do petróleo nos mercados internacionais diz respeito. Decidi, por isso, e por acreditar que estamos a aproximar-nos de um mínimo no preço em bomba, escrever uma série de três artigos sobre o tema.
– O primeiro, este, tentará explicar como se forma o preço em bomba e por que motivo este preço se poderá estar a aproximar de um mínimo.
– O segundo tentará explicar ao comum cidadão como poderá proteger-se de uma eventual subida no preço dos combustíveis, e como comprar desde já sem sair de casa o equivalente ao seu consumo de gasóleo ou gasolina para o resto do ano.
– O terceiro analisará do ponto de vista técnico a matéria-prima, para ajudar a seleccionar de forma mais precisa o melhor ponto de entrada para o fazer.
Vou tentar ser o menos técnico e maçudo possível, pelo que peço desde já desculpa por algumas imprecisões que derivarão de simplificações conceptuais.

A formação do preço dos combustíveis
Começando pelo início, os combustíveis europeus de uma forma geral são absurdamente afectados pelos impostos governamentais. Segundo dados da Entidade Nacional para o Mercado dos Combustíveis (fonte governamental), na última quinzena de Dezembro o preço médio de referência para o gasóleo era de 89,3 cêntimos (em alguns locais o preço atingiu os 84 cêntimos em bombas de marca branca). Destes 89,3 cêntimos, apenas 27,1 diziam respeito ao preço do combustível (entretanto os combustíveis subiram ligeiramente, mas utilizemos este dado oficial para exemplos de cálculo). A esmagadora maioria do restante foi derivado a impostos (quase 60 cêntimos).
Cenário semelhante ocorreu na gasolina, com valor de referência nos 1,14 euros e com apenas 29 cêntimos atribuídos à matéria-prima. Queiram reparar que a diferença de preço entre gasóleo e gasolina não está relacionada de sobremaneira com a matéria-prima. A diferença vem dos mais 20 cêntimos de ISP que este combustível paga! A termo comparativo, o ISP em 2008 era de 28 cêntimos por litro de gasóleo. Se este imposto se tivesse mantido inalterado, o preço do gasóleo em bomba rondaria hoje os 67 cêntimos por litro!
 
Por que motivo acredito que podemos estar próximos de um valor mínimo no que a preço em bomba diz respeito?
Ora, foquemo-nos na parte variável do preço. Destes 27,1 cêntimos nem tudo é matéria-prima. Uma parte importante é devida a custos fixos de refinação. Imaginemos, para exercício, que o custo do petróleo cai mais 50% e que metade desta margem é devida a um custo fixo que ronda os 10 cêntimos por litro. Dos 17,1 cêntimos remanescentes, uma queda de 50% apenas faria diminuir em 8 cêntimos o custo do combustível em bomba. É assim improvável que o preço do gasóleo em bomba quebre em baixa a fasquia dos 80 cêntimos em Portugal sem que exista uma decisão política de diminuir impostos (o que também é improvável). Esperar cenários de queda superiores a 50% do petróleo a partir do ponto actual não é também muito realista. Ao contrário do que acontece, por exemplo, com as acções, o valor das matérias-primas tem um drawdown máximo finito. Ou seja, a menos que caia completamente em desuso não pode cair até zero. O limite teórico será o nível de break-even (nem perda nem ganho) dos seus produtores com um custo de extracção mais baixo. Recordo que um dos países do Mundo com um custo de exploração mais baixo da matéria-prima é a Arábia Saudita. À medida que o valor de custo para a economia Saudita se aproxima do seu break-even (ronda os 25 dólares), a cooperação e o alinhamento com a OPEP tenderá a aumentar de forma a que não entrem todos em prejuízo. Mesmo considerando os níveis absurdamente elevados de reservas de combustíveis actualmente existentes e o abrandamento da economia Chinesa, um revés é sempre possível. Recordo, como se fosse necessário, que as maiores inversões nos mercados financeiros se dão quando todos acreditam que tal não é possível de acontecer. 
O impacto potencial de uma eventual subida nos combustíveis
Analisando então o cenário teórico de subida, nesse caso o risco para o consumidor seria significativamente superior. Caso, por exemplo, regressássemos a valores de Maio de 2015 no que ao preço do Diesel em mercado internacional (em euros) diz respeito, o custo em bomba repercutir-se-ia em mais 20 (+ 4 de IVA) cêntimos por litro de gasóleo. O mesmo exercício para a gasolina, que subiria 15 (+3 de IVA) cêntimos por litro. Para quem faz em média 90 quilómetros por dia, isto representaria um acréscimo de custo que rondaria os 500€ anuais. Torna-se assim, para aqueles que acreditam que o preço não continuará a descer por muito mais tempo, absolutamente fundamental tentar minimizar o impacto potencial desta subida. Como? Adquirindo no inicio do ano o equivalente a todo o gasóleo ou gasolina que se pretende consumir num determinado período de tempo. Assim, qualquer que seja a flutuação do preço em bomba, não haverá impactos na nossa carteira! Como o poderemos então fazer sem comprar um depósito caseiro de 2000 litros, e recorrendo em vez disso à ajuda dos mercados financeiros? A parte 2 desta série de 3 artigos tentará explicar de forma simples como tal poderá ser feito.

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