A narrativa socialista engana

Cristiano Santos

O Partido Socialista começou a construir uma nova narrativa, a de que “não vai haver austeridade”, devido à crise causada pelo coronavírus. Se há coisa que a esquerda em Portugal já conseguiu por diversas vezes, demonstrar ser capaz de fazer, é a de construir narrativas. Na maior parte das vezes essas narrativas são completamente deslocadas da realidade, mas conseguem vender um cenário que não existe e tentam simultaneamente demonstrar e sinalizar virtude e boas intenções, apesar de não as praticarem.

António Costa desdobrou-se durante estas semanas em declarações e entrevistas públicas, em idas aos programas de maior audiência nacional (como o programa da Cristina Ferreira) para vender a ideia de que não vai haver austeridade. Ferro Rodrigues também já veio dizer que “a austeridade é um vírus para o qual os portugueses já estão vacinados”. O Partido Socialista mobilizou as tropas para construir esta narrativa, com diversos intervenientes no espaço público a venderem a mesma ideia. Desta vez, creio que o PS está a ir longe de mais na narrativa.

Primeiro, porque nos quatro anos anteriores da governação do PS suportada pela restante esquerda, nunca houve alívio de austeridade nenhum, comprovado pelo aumento da carga fiscal e de diversos impostos que subiram, tal como o ISP. Segundo, porque já está a haver austeridade. É preciso algum grau de descaramento vir dizer que não vai haver austeridade, quando já estão empresas a fechar e o desemprego a subir. Estão ainda milhares de trabalhadores em lay-off, com o respectivo corte no ordenado. Tudo isto não é já austeridade?

Para além disto, como é óbvio, o Estado irá ter uma diminuição de receitas fruto da redução da actividade económica e vai ter por outro lado, aumento da despesa, com tudo isto que está a acontecer. E uma coisa é sagrada, dívida hoje, são impostos amanhã. Se calhar, por uma vez, o PS devia falar verdade aos portugueses. Aliás, se outro nome houvesse para o Partido Socialista, esse nome seria o Partido da Austeridade. Em 1977, com Mário Soares no leme, chamaram o FMI, para responder à crise e veio uma dose de austeridade anexada. Em 1983, segundo pedido de ajuda ao FMI e mais uma vez com Mário Soares no leme (acredite em coincidências quem quiser) e ele próprio dizia, “Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos”. Se fossem outros a dizê-lo era a indignação geral, mas a esquerda em Portugal pode dizer tudo. Lá saiu mais uma dose de austeridade com o PS no comando.

Depois vieram 10 anos de Cavaco Silva. Foi o período de tempo com maior crescimento económico da economia portuguesa desde o 25 de Abril até hoje e com a dívida e o défice controlado. Mas até para isto a esquerda arranjou uma narrativa, pois tal crescimento económico só foi possível devido ao dinheiro da europa que entrou como nunca. Tal história é absolutamente falsa, o período em que mais dinheiro entrou em Portugal vindo da União Europeia foi no tempo do António Guterres, mas já sabemos que a esquerda constrói narrativas como ninguém e quando um país teve os seus melhores resultados com alguém como o Cavaco Silva, não se pode aspirar a grande coisa. Mas os factos são esses. E o resto da história já é conhecida, Sócrates e uma maioria absoluta socialista pelo meio, só podia resultar novamente num pedido de ajuda ao FMI. A única coisa que me admira, é o povo português continuar a votar neles.

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