A inesperada decisão do Banco Central Suíço

Tiago Esteves
Na quinta-feira, o Banco Central Suíço (BCS) apanhou os mercados financeiros totalmente desprevenidos ao remover a ligação que tinha à moeda europeia desde as fortes valorizações da moeda local em 2011. O BCS justificou o término da ligação com o carácter excepcional da medida quando foi introduzida em 2011, com a divergência em termos de políticas monetárias das principais autoridades mundiais, e com o forte impacto que a desvalorização do euro face ao dólar tem causado ultimamente no franco Suíço. Apesar de as justificações serem mais do que aceitáveis, a verdade é que ninguém estava à espera desta decisão. 
Na minha opinião, foi provavelmente o vislumbre de um programa de Quantitative Easing na europa que desencadeou a tomada desta decisão. A acontecer, o euro continuaria a desvalorizar, e o ritmo de compra de euros por parte do BCS teria de acompanhar as quedas (para proceder a esta ligação, o BCS comprava
activamente moeda europeia – ou vendia reservas, se fosse o caso – para
obrigar à fixação no range 1,2-1,25). A brutalidade da decisão fez o euro cair para próximo da paridade com o franco suíço e para os 1,15 dólares, e esse facto tem por si só enormes repercussões políticas e monetárias. Se por um lado o valor das reservas de euro do BCS caíram a pique, por outro deixa de haver agora a necessidade de continuar a contrariar a queda com a compra de uma moeda que tem vindo a enfraquecer. É provável que o BCS não tenha deixado cair definitivamente a medida, apenas venha a mudar de táctica para em breve fazer uma ligação ao dólar americano.
No mercado de forex, milhares de investidores faliram esta semana, e algumas corretoras também. A expectativa da manutenção da paridade fez muitos investidores de forex alavancar-se fortemente contra a expectativa de continuidade do movimento descendente que aproximou o preço do fundo do range, e uma queda absolutamente monumental num espaço de segundos (é de louvar a aparente total fuga de informação face a uma medida tão importante) não deixou o mínimo de espaço para reacção. Como dizia anteriormente, muitas foram as corretoras que tiveram também perdas elevadíssimas, levando já inclusive muitas delas a sentirem a necessidade de terem de tranquilizar os seus clientes. Mais grave do que isso, muitas corretoras incentivaram activamente os seus clientes a abrirem mega posições neste par, com a quase garantia de verem assegurada a rendibilidade do seu investimento no curto prazo. Fica a lição, uma vez mais, de que nos mercados não há certezas absolutas. Apenas conjugação de probabilidades, que podem ser mais ou menos elevadas.

Comment List

  • Rui Carvalho 17 / 01 / 2015 Reply

    Eu no dia anterior tinha fechado o meu longo no EURCHF. Portanto, posso dizer que este ano. mesmo que não faça nenhum trader, já estou com bastante lucro, melhor dizendo, consegui não falir…No forex, nunca mais, porque não nos podemos esquercer que é um mercado não regulado……

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 18 / 01 / 2015 Reply

    O Forex é um mundo ingrato, Rui… Mas com a devida precaução também pode ser proveitoso. Ainda assim, pesando esse evento, eu acho que ficava o resto do ano a assistir de lado ao desenvolver dos mercados 🙂

  • JorgeNevada 18 / 01 / 2015 Reply

    Importa também dizer que muita gente faz uma pequena fortuna a semana passada. Arriscaria até a dizer que há muita gente que nunca mais vai precisasr de trabalhar à pala da decisão do Banco Suiço!

  • Daniel Pires 18 / 01 / 2015 Reply

    O que aconteceu na quinta foi um evento raro e por isso que se aconselha quando saem as notícias macros e noticias dos bancos centrais fecharem as operações ou não actuarem durante esses eventos….

    Penso que vai ter consequências de longo prazo e poderá ajudar de certa forma a Europa já que os activos terão que ir para algum lado

  • Anónimo 19 / 01 / 2015 Reply

    Jorge Nevada, acha mesmo que muita gente fez uma fortuna nesse dia? Então eu dou-lhe os dados do posicionamento em EUR/CHF antes da calamidade: os 98% que estavam longos eram clientes a retalho e os 2% curtos eram institucionais. Quem fez uma fortuna foram os grandes investidores institucionais que provavelmente tinham inside information. Não fazia qualquer sentido entrar nesta trade curto a não ser que se soubesse o que ia acontecer. Só os grandes tubarões é que ganham nestes casos e não é com base em análise técnica. Isto é claro como água cristalina

  • Daniel Pires 19 / 01 / 2015 Reply

    Tenho ouvido muitos rumores que dias antes da conferencia de imprensa do BNS havia um volume anormal de ordens PUT nos futuros do Franco o que era na altura um contrasenso pois havia a "barreira" indicada no BNC, no entanto o consenso é que esta noticia foi supresa para a maioria…
    Na minha humilde opiniao parece que a estrategia do BNC saiu pela culatra…

Deixe uma resposta