A partir de amanhã o velho BES passa a chamar-se “Novo Banco”

Tiago Esteves
Acaba de ser comunicado pelo governador do Banco de Portugal o plano de recapitalização para o BES, e não posso deixar de me mostrar totalmente espantado pelas medidas tomadas. Nem tanto pelo aspecto negativo, mas sobretudo por não estar à espera de decisões tão próximas do que acontece numa economia eficiente de mercado. O BES vai ser separado em duas partes, ficando a parte com todos os activos de interesse associados ao “Novo Banco” e os activos tóxicos no antigo BES. Accionistas e obrigacionistas ficam com o BES, não tendo qualquer associação (pelo menos para já, pelo menos de forma aparente) ao “Novo Banco”. Os obrigacionistas terão de esperar pela total liquidação dos activos tóxicos e pela devolução ao fundo de resolução do montante injectado para tentarem reaver algum do dinheiro perdido. Os accionistas terão de esperar que os obrigacionistas sejam totalmente reembolsados para, eventualmente, ainda reaverem algum dinheiro. Esta será a aparente resolução para o final desta novela que se tem vivido de forma intensa nas últimas semanas.

Alguns pontos a destacar:
– Absolutamente surpreendente, antes de mais, o tamanho dos danos provocados pela anterior gestão nos últimos dias de trabalho. Haverá certamente muito a fazer nos tribunais, duvido que a justiça não tenha mão muito pesada sobre todos estes criminosos. Espero, como todos os portugueses, que a justiça faça deste caso um exemplo. Para que situações destas não se voltem nunca a repetir;
– O total afastamento do “Novo Banco” de accionistas e obrigacionistas subordinados espanta-me imenso. Nunca em Portugal me lembro de algo deste género, é um dado novo que só tem como único ponto positivo aproximar-nos de uma economia de mercado mais eficiente. Há que dizer que esta resolução terá vindo quase de certeza da UE, não vejo coragem política em Portugal para a tomada desta decisão;
– A solução encontrada
salvaguarda totalmente os clientes e depositantes, o que se traduz num voto de confiança no sistema financeiro. Deixar os depositantes percepcionar o mínimo risco seria absolutamente ruinoso para todo o país, ou mesmo toda a Europa. Não podia acontecer!
– O fundo de resolução será suportado pelas contribuições das entidades financeiras e por um empréstimo da linha de recapitalização da Troika. Não tendo ficado claro o juro que será pago aos contribuíntes, pressuponho que seja algo muito próximo dos 8% ao ano, à semelhança do que aconteceu com os COCO’s. É, uma vez mais, um excelente negócio para os contribuíntes. 
– Mete dó ouvir o governador
do banco de Portugal a falar de temas que deveria dominar. Salta à vista que não
é mais do que um peão num jogo complexo. Continuo a pensar que a cabeça dele tem de rolar, em conjunto com a do presidente da CMVM.
– Este caso deixa uma grande lição a todos os que investem nos mercados financeiros. Nenhum título caiu demais, quando uma queda é já muito longa. Nenhuma compra baseada no longo prazo é garantida ou assegurada. Existe sempre um nível mais abaixo, o nível de falência.

Uma última palavra para accionistas e obrigacionistas do banco, alguns dos quais meus amigos pessoais. A vida nos mercados é isto, umas vezes ganha-se dinheiro e outras vezes ganham-se lições. Se desta vez o ganho não foi financeiro, foi apenas uma lição um pouco mais cara. Há valores que falam mais alto, a vida continua….

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  • Anónimo 03 / 08 / 2014 Reply

    O Sr.º Carlos Costa, regulador incompetente tem que ser responsabilizado pela a inexistência da supervisão, porque a omissão também é crime, e o que a CMVM fez com a sua conivência em todo este processo, desde o aumento de capital até à sexta feira passada, tem que obrigatoriamente rolar cabeças.
    Outro aspeto negativo deste desfecho, é que o fundo de resolução que é constituído pelos outros bancos, ficam bastante expostos ao insucesso desta operação. É triste quando existem reguladores nacionais e nada fazem e têm de ser as entidades europeias a pôr ordem na casa. Troika não te vás embora……

  • JoseR 04 / 08 / 2014 Reply

    Desde já agradeço as analises efetuadas e esclarecimentos relativos ao comportamento da bolsa.

    O caso do BES… vivemos num país onde a regra principal da gestão financeira e empresarial é "não ser responsabilizado" onde vemos políticos, banqueiros e CMVMs por um canudo a brincar com o dinheiro dos contribuintes (Monopólio?).

    Não pertenço a nenhum dos pequenos acionistas mas aprendi uma nova lição com o BES. A minha formação no PSI20 já esta a ser demasiada penalizadora.
    As empresas que trabalham no mesmo esquema financeiro do BES terão o mesmo destino (falência). Espero que os livros e experiencia dos nossos gestores não sejam os mesmos dos gestores da Argentina.

  • Daniel Pires 04 / 08 / 2014 Reply

    Bem…

    No meu entender o BP quis dar uma "lição" ou melhor dar o exemplo para casos futuros, mas ja vai muito tarde…quanto aos processos criminais ja sabemos o que vai acontecer…vejamos o caso BPP, BPN e BCP (que quem tem dinheiro nao paga multas)…

    Agora tenho pena é dos pequenos accionistas que foram ao aumento de capital e perderam tudo…

    As pessoas que subscreveram acções e obrigações tem razao em se sentir "uma vez mais" burladas…

    Quanto a analise tecnica, tudo estava la a indicar o caminho: perda de suportes importantes,perdas de canais ascendentes, perdas de linhas de tendencia, inversão de tendencia, sequencia de minimos,Volatilidade em maximos, etc… uma vez mais agradeço que tenha aprendido de certa forma analise tecnica e gestao de risco…

  • Sofia Ferreira 04 / 08 / 2014 Reply

    Muito bom dia,

    agradeço desde já o seu contributo para a compreensão desta situação que sinceramente ainda não consegui compreender ao certo o que aconteceu ou melhor como aconteceu…

    Gostaria de lhe colocar uma questão, os PPRs no Novo Banco estão seguros ou apenas os depósitos? Obrigada!

  • Yautja 04 / 08 / 2014 Reply

    Boas,

    Antes de mais gostava de deixar uma palavra de solidariedade aos pequenos accionistas que levaram um rude golpe na sua carteira.
    Seria muito fácil chegar agora aqui e dizer que houve avisos e tal….., mas por mais que se passasse a granada de mão em mão ela acabaria por explodir nas mãos de alguém.
    Agora sabemos que houve redução de posição por parte do Goldman Sachs, a saída de Bradesco pouco minutos de antes da suspensão da negociação das acções e disso ninguém me convence que não houve fuga de informação privilegiada.
    É mais que óbvio que tem que haver consequências neste caso e uma vez que o Sr. Carlos Costa e o Sr. Carlos Tavares não tiram as devidas consequências, então alguém com autoridade sobre os mesmos terá que tirar essas consequências.
    O Aumento de capital realizado à bem pouco tempo, não foi mais do que um saque/fraude aos pequenos accionista, que confiaram nas autoridades de supervisão.
    Desejo a maior sorte para os pequenos accionistas, mas não consigo prever boas noites de sono nos próximos tempos.

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