Análise semanal – Zon Optimus

Tiago Esteves
A vencedora da análise semanal foi a Zon Optimus. A análise desta semana é especial, já que será pouco mais do que um esclarecimento a toda esta confusão que se tem gerado em torno da nova empresa que entrará em bolsa na próxima semana, fruto da fusão entre a Zon e uma parte da Sonae.com. Nas últimas duas semanas recebi vários e-mails de leitores que possuíam acções de uma, de outra ou das duas empresas e que não faziam ideia do que aconteceria no dia 9 de Setembro. Parece-me lamentável que a CMVM, instituição que suspende com frequência a negociação das acções dos clubes de futebol para pedir esclarecimentos porque saiu uma notícia menos clara no jornal Record, não se dê ao trabalho de esclarecer ou forçar as entidades a esclarecerem os seus accionistas de forma simples e clara sob o caminho que está a tomar o seu dinheiro!

Posto isto, comecemos então os esclarecimentos. A nova empresa, que será cotada em bolsa na segunda-feira, chamar-se-à Zon Optimus. A criação desta empresa teve por base a fusão por incorporação da Optimus na Zon. Este é o primeiro ponto a esclarecer: na prática a fusão não é entre a Zon e a SonaeCom mas sim  entre a Zon e uma pequena parte da SonaeCom, a Optimus. Na segunda-feira veremos
que a SonaeCom se manterá em bolsa e a Zon dará lugar à Zon Optimus,
ficando assim o PSI-20 com o mesmo número de empresas. A diferença será relativa ao interesse indirecto que a SonaeCom terá sob a
Zon Optimus, já que passará a possuir 7% das suas acções.

A Zon Optimus é controlada pela ZOPT (no fundo é apenas uma empresa-veículo), que por sua vez é detida em partes iguais pela Eng. Isabel dos Santos e pelo Eng. Belmiro de Azevedo. Especificando, 50,01% da Zon Optimus passa a ser detida pela ZOPT sendo que as restantes participações de relevo são detidas pela SonaeCom (em 7%, como referido anteriormente) e pelo BPI (4,5%).

E o que acontece às acções dos pequenos investidores? Apesar de este ponto ainda não ter sido devidamente clarificado, vou ainda assim arriscar uma clarificação tendo por base os dados conhecidos até ao momento. Quem tem acções da SonaeCom ficará na mesma, com a eventual mais-valia decorrente de possuir uma pequena percentagem de uma empresa teoricamente mais competitiva e sólida do que a Optimus. Será essa alteração justificação suficiente para a subida de 100% nas cotações no último ano? Não me parece, se esse foi o motor de ignição em breve poderá extinguir-se a chama ascendente…

Para quem tinha acções da Zon o cenário é ainda menos claro mas arriscaria dizer que as coisas ficarão também iguais. Parece-me que o aumento de capital e a entrada em negociação de 206 mil novas acções foi efectuado de forma a ajustar o valor e o número de acções. Se assim for, todos os pequenos accionistas com acções da Zon ficarão com o mesmo número de títulos a valer exactamente a mesma coisa, apenas com um nome diferente a partir de segunda-feira. Mais uma vez saliento que não estou totalmente certo deste ponto, mas em breve descobriremos! Em termos de AT era fantástico que assim fosse, já que o gráfico se manteria “limpinho”.

No que diz respeito à Zon, agora Zon Optimus, poder-se-à compreender melhor esta recente valorização. A valorização será fruto da expectativa de um aumento de competitividade e das relevantes sinergias que se esperam decorrer do processo de fusão. A grande maioria das sinergias deverá materializar-se nos próximos 3-5 anos, sendo elas:

– Optimização do investimento em infraestruturas; 

– Gestão e planeamento integrados da rede fixa e móvel, com a respetiva exploração da convergência de redes;
– Redução da dependência de infraestruturas de operadores concorrentes;
– Redução de custos inerentes ao investimento do Grupo ZON, no segmento móvel, e do Grupo OPTIMUS, no segmento fixo e no projeto de televisão por subscrição, com a captura recíproca de valor dos negócios corede cada um dos grupos;
– Optimização da estratégia de abordagem a segmentos de mercado em que cada uma das empresas individualmente tem mais experiência;
– Optimização resultante da negociação agregada de contratos e compras;
– Oferta de produtos e soluções integradas e convergentes.
(retirado de documento informativo à CMVM) 

Se é verdade que estas sinergias têm grande potencial e poderão vir a tornar difícil a vida da PT pelo aumento do poder de concorrência, não é menos verdade que nem tudo são rosas num processo de fusão. Este é um tema especialmente subavaliado e sob o qual me sinto particularmente à vontade para falar. Se uma fusão ou M&A traz geralmente mais-valias em termos materiais e estruturais, a parte humana da junção é geralmente um desastre. Imaginem o que significa a junção de duas empresas rivais no mesmo plano estratégico, empresas com culturas organizacionais, níveis salariais e condições de trabalho geralmente bastante distintas. As lutas pelo poder tornam-se uma constante e há um aumento significativo da desconfiança entre pares. Este factor, que é de facto demasiadamente subavaliado, é responsável pelo falhanço na maioria dos processos de fusão. E mesmo quando a fusão subsiste, estima-se que os resultados financeiros sejam abalados em 10-20% nos primeiros 2-3 anos após o evento, havendo progressivamente um ajustamento organizacional. Neste caso em concreto o choque é menor, já que um dos players se destaca na área da TV e o outro na área das telecomunicações móveis. Ainda assim este é um assunto de grande importância e que poderá mesmo vir a tornar-se decisivo.

Tudo isto para dizer o quê? Que a Zon Optimus poderá de facto vir a ser uma empresa com enorme potencial, que poderá vir a fazer sombra à PT, mas há ainda demasiadas interrogações. Não se pode esperar que um processo destes traga benefícios para os accionistas em três semanas, nem em três meses sequer. Talvez daqui a três anos comecemos a ver frutos desta união, frutos palpáveis. Antes disso uma entrada longa será demasiado incerta, demasiado especulativa e, por isso, demasiado arriscada. O tempo dirá se este casamento acabará por revelar-se uma perfeita união…

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