Aproxima-se a hora de vender?

Tiago Esteves

Nas últimas semanas aconteceu algo de inesperado, mais inesperado até do que este ressalto: eu rendi-me às evidências e comecei a ponderar se não estaria a ser demasiado bearish na minha visão sobre a actual situação dos mercados. Continua a ser apenas uma alteração de opinião parcial, já que nem todos os índices estão a dar sinais positivos. Enquanto o PSI-20 quebra em alta um padrão típico de inversão, o SP500 continua tão bear como tem estado no último ano. Apesar da divergência entre este e outros índices importantes, vou analisar o seu comportamento uma vez mais para tentar perceber em que ponto nos encontramos relativamente a este ressalto/início de bull market. Como sempre, tentarei ser tão neutro quanto possível, embora essa tarefa esteja dificultada pelas posições abertas que detenho.

Antes de mais, deixem-me esclarecer uma coisa. Não acredito que as bolsas europeias e asiáticas partam para um bull market longo e duradouro e os Americanos se continuem a afundar. Pelo menos, não para já. A longo prazo não pode ser excluído um cenário semelhante ao Nipónico, e aí tenderia certamente a existir uma divergência. Posto isto, o movimento ascendente deste lado do atlântico poderá durar mais ou menos tempo, mas enquanto não houver sinais de início de um bull market nos EUA duvido que arranquem em definitivo.

O SP500 mantém-se a cumprir escrupulosamente o padrão de lower-highs/lower-lows. O RSI caminha a passos largos para a zona de sobrecompra e tem sido precisamente acima dos 63 pontos que a maioria dos retracements tem acontecido.
Enquanto não for quebrado o anterior máximo relativo, nos 943, está fora de questão assumir posições longas sobre o índice para o longo prazo. A zona de resistência é muito forte e a sua quebra marcará a transição para um eventual novo bull market.
Não acredito que essa quebra venha a acontecer, mas acredito que nos poderemos aproximar dessa zona.

Actualmente estamos a assistir à fase maníaca dos intervenientes no mercado. Em pouco mais de um mês esqueceram-se todas as más notícias e só se olha para o que pode ter uma interpretação esperançosa. Quanto ao resto, mais vale mesmo ignorar.
Essa euforia desmedida (é mesmo desmedida, tendo em conta os sacrifícios que a próxima geração terá de sofrer para pagar a factura da irresponsabilidade) está patente no rácio bulls/bears. Este indicador contrário apresenta neste momento o valor de bulls mais elevado desde o início do bear market. Se já todos tiverem comprado, só restará vender!
Mesmo num bull market, valores acima de 60% (dirigimo-nos apressadamente nessa direcção) são associados a correcções. Num bear market (é o caso, até prova em contrário) poderemos assistir a uma queda brusca das cotações associada ao encerrar sequencial de posições longas.
Uma palavra para o VIX, que já se encontra abaixo da zona associada a conforto (40), mas ainda acima dos 35. Antes do anterior movimento ascendente, os 35 foram um valor de resistência muito importante. Assim, também deverão servir como suporte.


Já entramos oficialmente na época de apresentação de resultados. É sempre uma incógnita saber como reagirão os mercados, com euforia valorizando as surpresas positivas, ou pânico, valorizando as negativas. Por ser tão difícil prever o que vai acontecer, geralmente opto por fechar as posições no mercado americano, à excepção das mais conservadoras.
Isto de lotarias faz-me mal à cabeça…

Em jeito de conclusão, penso que o movimento ascendente já vai esticado e chegou a hora de tomar providências. Não defendo que devem ser encerradas as posições longas que deram sinais de inversão de tendência, mas as que estão apenas a nadar com a corrente devem, pelo menos, ser mantidas sob vigilância apertada. Não digo que seja já esta semana que se inicie o movimento correctivo, mas quanto mais se enche o saco mais perto ele fica de rebentar.

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