Até quando aguentará a FED os touros na rua?

Tiago Esteves
O programa de insuflação artificial aos mercados financeiros (também conhecido como quantitative easing) está quase a celebrar cinco anos de existência. Num movimento como não há memória os Estados Unidos conseguiram suportar, com base na impressão de dinheiro, a sua economia (e, justiça seja feita, a do resto do mundo também) durante quase meia década. Será certamente um caso de estudo para o futuro, ou pela genialidade do plano ou pela condenação das próximas duas gerações a pagarem a factura de 5 anos de festa (pelas minhas contas, e perdoem-me o impreciosismo grosseiro, a FED já terá gasto o equivalente a cerca de 30x a nossa dívida).

À semelhança do que acontece com os adolescentes mimados, também o mercado americano tem feito birras de cada vez que ameaçam cortar-lhe o dinheiro fácil. E à medida que o tempo passa e esse padrão se mantém inalterado o adolescente vai ficando mais mimado, mais dependente, menos disposto a crescer e a lutar pela sua independência financeira. Volto hoje a escrever sobre este tema porque uma vez mais se começa a falar no inevitável corte aos estímulos. Terá de ser gradual, é certo, mas ainda assim os mercados reagirão com previsível descontentamento. Havendo neste momento um ciclo de crescimento em forma de bolha, basta o mínimo sinal de abrandamento para o castelo de nuvens desmoronar e termos um dos piores bear markets da história recente.

A grande questão passa por compreender se estes 5 anos de estímulo ajudaram a revitalizar a economia americana o suficiente para começar agora a caminhar pelos seus pés. Rapidamente o iremos compreender, provavelmente lá para meados de 2014. Eu tenho dúvidas, muitas dúvidas.
Aproveito para recordar algo que todos parecem querer esquecer e que não é de todo um pormenor a desprezar. Esta brutal impressão virtual de moeda foi feita para ser “temporária”. O passo final deste plano potencialmente genial seria agarrar nos títulos de dívida comprados ao longo de todo este tempo e voltar a vendê-los. Para quê? Para recuperar o dinheiro gerado artificialmente e poder eliminá-lo de novo, igualando o balanço.

Infelizmente este é um aspecto de que todos se têm vindo a esquecer, talvez porque o vejam como surreal… se os títulos não forem vendidos o governo fica com uma enorme fatia do seu portfolio composta por lixo! E não havendo reposição do dinheiro há desvalorização da moeda, dificuldade de financiamento externo, depressão da economia and so on. Será que valeu a pena? Em breve vamos descobrir. Pelo sim pelo não vamos aproveitar enquanto dura e tirar também uns bifes da vaca gorda americana…

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