Avaliando o pulso à crise

Tiago Esteves

Tal como tinha prometido, aqui fica um pequeno (??) comentário ao estado do SP500, espelho da actual crise financeira. Antes de mais, porquê o SP500? Em primeiro lugar porque é um índice americano, epicentro da crise. Em segundo lugar, porque é quase consensualmente considerado como o índice de maior relevo e que melhor representa a generalidade das empresas americanas (excepto pelos conservadores, para esses é o antiquado DJ), incluindo as empresas ligadas ao ramo imobiliário, à banca e a todos os outros sectores que progressivamente têm vindo a ser afectados com o desmoronar do castelo de cartas.

Olhando para o gráfico de muito longo prazo (os últimos 60 anos), há uma característica que salta à vista. Até à data nunca vivemos um verdadeiro bear market, tudo a que temos assistido são meras correcções técnicas na big picture. Essa big picture é apelidada por alguns de super-bull. No fundo, é isso que alguns economistas defendem dos mercados. Por muito abruptas que sejam as correcções temporárias, a riqueza gera riqueza e o efeito cumulativo há-de sempre sobrepor-se.
Como não pretendo estar para aqui a discutir aspectos teóricos, prossigamos (mas com essa ideia retida no pensamento).
Outro aspecto que salta à vista é um duplo topo nesse super-bull. E era aqui que eu queria chegar… Aliada a toda a desfavorável conjuntura macro-económica, existe um padrão preocupante. É por regra um padrão que dita o final de um bull market. Mas, será apenas o bull dos últimos 4 anos que acabou? Ou podemos estar perante a morte do super-bull, que reina há décadas?
As teorias mais alarmistas apontam nesse sentido, eu não serei tão radical.

Para os menos atentos, recordo que estamos agora a atingir um ponto psicologicamente marcante. Estamos a chegar à zona que marcou a inversão do último bear market. A zona entre os 775 e os 950 pontos havia de se fazer recordar, depois das fortes batalhas de que foi palco ainda há poucos anos atrás. Neste momento, essa zona psicológica está a servir de almofada a um dos bear markets mais severos da história dos bear markets. Quando olhamos para o gráfico nestes últimos meses, vimos uma linha quase vertical, ausente de ressaltos realmente dignos desse nome.
Este factor, aliado ao “tal” efeito psicológico desta zona e ao típico rally pós eleitoral, podem estar a criar aquilo que eu espero que seja um ressalto técnico salutar. Vêem-se muitos optimistas, acreditando que o pior já passou e um novo ciclo se iniciou. Na verdade, não temos razões para estar assim tão optimistas. Senão vejamos…

O anterior bear market teve o seu fundo nos 800 pontos, mais coisa menos coisa. É essa a zona onde actualmente nos encontramos (ou para lá caminhamos com alguma velocidade). É esse o ponto que muitos acreditam ser de viragem.
Ora, sendo o topo do anterior bull market (o de 2000) coincidente com o topo deste mais recente, se dissermos que eles poderão também terminar em valores semelhantes estamos na prática a comparar ambas as crises!

A anterior crise foi gerada pela bolha tecnológica e a sua consequente explosão. Uma crise perfeitamente localizável, especialmente quando comparada com a abrangência da actual. Desta vez, não são apenas algumas .com que estão subavaliadas. Desta vez temos uma crise que afecta a economia real de uma forma tão profunda que poucos se atrevem a revelar até onde isto nos poderá levar.
Não vou estar a falar sobre a crise do subprime, sobre o desemprego, sobre a estagflação, sobre o descrédito das instituições, sobre as restrições ao crédito… Sobre como todos esses factores aliados se podem tornar numa perigosa bola de neve! Não é esse o meu objectivo, até porque todos os dias temos ouvido falar nisso nos mais diversos meios de comunicação e toda a gente tem pelo menos uma noção da realidade.
Permitam-me uma ilustração algo macabra. Compararmos as duas últimas crises é como comparar tumores. A de 2000 corresponderia a um tumor benigno, fácil de localizar e de delimitar. É sempre difícil ter um tumor, mas depois de ele estar localizado e retirado, o único caminho é para a melhoria.
A actual crise corresponderia a um tumor maligno, impossível de delimitar e remover na totalidade. Mesmo tratando a massa principal, teríamos de fazer dolorosos tratamentos para eliminar as células que ficaram. E o pior de tudo: após todo esse esforço, corremos sempre o risco de vir a saber que outros órgãos foram atingidos. E aí, toda a dor teria de recomeçar, com mais um sector afectado.
Embora o exemplo não seja dos mais bonitos serve para distanciar e ajudar a diferenciar a gravidade de ambas as situações.

Temos ouvido nos últimos dias notícias desastrosas, números negativos e preocupantes, indicadores que atingiram valores só vistos pelos nossos avós. Curiosamente, o mercado é o único que não “ouve” esses valores. Alguns defendem que isso já estava mais do que descontado, eu defendo que o mercado ainda os vai incorporar e descontar.

O que é que eu penso que pode acontecer num futuro relativamente próximo?
Vou traçar dois cenários possíveis e até conciliáveis:
– Assistimos a um triplo fundo, o mercado acredita no início do novo bull e temos um rally de 1/2 meses de duração que pode chegar aos 1150/1200 pontos.
– A marca psicológica da última grande recuperação fica para trás e… entramos num vazio de suportes… Abaixo dos 775 pontos, pouco mais há do que anos a fio de subidas. Isso quer dizer que, a acontecer, o mercado teria de criar os seus próprios suportes. Ao criá-los poderiam acontecer ressaltos duradouros, lembrando mini-bull markets. Mas sempre com os traços da descida no horizonte.
Como já disse acima, não sou drástico ao ponto de acreditar que o super-bull chegou ao fim. Mas acredito que o fundo será quebrado e que a procissão só ainda agora vá no adro.

A LTa azul traçada no gráfico tem pouca validade, eu sei. Dois toques em 60 anos é realmente pouco. Mas deixei-a ficar, porque ela tem uma particularidade. Durante mais de 30 anos o índice regeu-se por aquela angulação (19º) nas suas subidas e nas casuais correcções.
Estando o que ela tem de mais semelhante com um suporte poucos pontos abaixo dos 400, não ficaria surpreendido se fosse um re-teste a esta linha esquecida que reavivasse a chama dos touros.

Um comentário

  • Bruno 27 / 03 / 2009 Reply

    Olá Tiago,

    Ante de mais obrigado por partilhares a tua visão dos mercados com o resto da malta. Tenho acompanhado o teu blog com regularidade e gosto muito da forma como escreves, em particular do teu conservadorismo.

    O comentário que aqui quero deixar à tua análise é a seguinte: caso tenha sido feito um duplo topo, no que chamas de super-bull, a projecção seria um reste à LTa dos 60 anos. Estou a ver bem a coisa? Se assim for ainda vamos a meio do caminho, autch.

    Abc

Deixe uma resposta