BCP – As consequências da fusão de acções!

Tiago Esteves
A inevitável fusão de acções no BCP acabou mesmo por acontecer, anos depois de se ter falado sobre essa possibilidade pela primeira vez, e todo um novo mundo está agora a começar. Importa por isso analisar algumas das potenciais consequências que vêm acopladas a tal medida, que não é inédita mas tampouco é comum na nossa praça. 

A primeira consequência prática passou pela total perda de validade técnica de longo prazo neste título. As referências psicológicas foram totalmente eliminadas, e mesmo com o ajuste gráfico das cotações, não há qualquer sentido prático em basear decisões de negócio num gráfico totalmente fictício e com valores que não existiram na realidade. A solução prática para eliminar este problema teria sido a utilização de um factor de ponderação de 100x, mas já vamos um pouco tarde para isso. Serão necessários no mínimo 3 meses de histórico para se voltar a negociar baseados no gráfico diário, e um mês para se negociar com base no horário (mínimo 15 dias).

A segunda consequência é positiva. A negociação a estes níveis retira-a (para já) do campeonato das penny stocks, e isso poderá levar novamente a que alguns fundos não especulativos se interessem pelo título. Sendo critério de exclusão por parte de alguns fundos o preço nominal do título demasiado baixo, passa assim o BCP a cumprir novamente esse critério. Claro que temos ainda a questão da capitalização, mas nesse campo espera-se que a Fosun dê em breve uma ajuda.

A terceira consequência, também positiva, está relacionada com a diminuição da volatilidade intraday. Sobretudo por motivos psicológicos (mas também devido ao número de casas decimais disponíveis para negociar), é completamente diferente vermos um título “saltar de 1,10 para 1,18 euros ou saltar de 0,0010 para 0,0018€. Esta alteração levará assim a uma expectável diminuição do factor volatilidade, não significando contudo que o título não suba ou caia na mesma amplitude em termos de médio prazo. Apenas suaviza o seu Beta.

Falta ainda falar sobre o “elefante na sala”. O preço estará agora mais
pressionado, com menos pessoas a comprarem por terem a ilusão de
inultrapassabilidade descendente do cêntimo. O preço actual continua a ser baixo o
suficiente para dar uma ilusão semelhante, mas não ao mesmo nível. A
perda de referências técnicas também aumenta a pressão vendedora, por
parte dos compradores que estariam à espera que atingisse o preço x, ou simplesmente
porque não confiam em manter em carteira um título que não
apresenta para já referências de negociação. Temos visto, numa curtíssima amostra do que pode ser o futuro, que o título está pressionado. Apesar, claro está, de as muitas novidades e desenvolvimentos que estão a aproximar-se poderem vir a alterar o sentimento do título.

Desde logo a apresentação de resultados dentro de pouco mais de uma semana, e definitivamente quando se conhecerem mais detalhes sobre o aumento de capital para permitir a entrada da Fosun. O histórico é de diluição e aumentos de capital, e é isso que preocupa o mercado. Quais serão as consequências de uma recapitalização para os accionistas? A julgar pelo passado recente, passará provavelmente por nova diluição significativa no número de títulos no sentido de criar espaço para este novo accionista. Se a diluição for de 20%, o título deverá ultrapassar a marca de 1€ em baixa. Se a administração aproveitar para capitalizar também junto dos actuais accionistas, a diluição será ainda maior. Mesmo que a Fosun pague um pequeno prémio para entrar no título (não sei sequer se isso será um tópico a discutir), dificilmente será anulado o efeito da diluição. E, sejamos sérios, quão grande poderia ser esse prémio? Feitas as contas, quem necessita mais de quem? Basta ver de que lado surgem as exigências…

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