BCP – Quedas acentuadas, Short Interest, e muita tensão acumulada

Tiago Esteves
Para terminar a ronda de análises à banca, falta olhar para o BCP. O BCP foi e continuará a ser a estrela entre os pequenos investidores, o que gera uma tensão especial no mercado nos seus momentos de maior dificuldade. Infelizmente já há muito tempo que este título não passa por uma fase de verdadeiro alívio, tendo o cenário vindo a ganhar um tom mais carregado de negro nos últimos meses. Este movimento tem sido de certa forma potenciado por um aumento do short interest. Só esta semana, a Marshall Wace e a Oceanwood abriram posições curtas representativas de 1,5% do capital do título. Será esta pressão curta que está a fazer o título cair de forma tão acentuada? Não ajuda, obviamente, mas sejamos honestos… o short interest situa-se nos 3,71%, o que significa que 96,3% do capital continua do lado dos longos. Sem querer entrar numa análise fundamental demasiado aprofundada, porque estou longe de ser um perito no BCP, a procurar-se por um bode expiatório faz mais sentido olhar para o Banco de Portugal do que para os shorts. 
A “nacionalização” das obrigações sénior do BES foi o passo mais incompetente e nefasto para a economia portuguesa que esta instituição ajudou a dar ultimamente. É absolutamente incompreensível como tal pode ocorrer. Esta medida de poupança de 2 mil milhões arruinou a possibilidade de a banca portuguesa (e não só) ganhar total independência financeira através do mercado obrigacionista numa óptica de curto prazo. Faltam ainda ao BCP reembolsar 750 milhões em COCOs, e uma fatia importante deste valor deveria vir de financiamento em mercado. Afastando-se essa possibilidade, o que sobra? Mesmo sendo mantida a trajectória positiva em termos de resultados, os lucros poderão não ser suficientes para um reembolso total. Se assim for, poderá ter de recorrer-se à via de financiamento mais fácil, aquela que não agrada aos accionistas… Teorias fundamentais à parte, cinjamo-nos à análise técnica. 
No gráfico diário, como já referi, a inversão consumou-se em Junho de 2015. A partir desse ponto tem vindo a acentuar-se a queda, com três rallies descendentes especialmente bem marcados no gráfico. Olhando para os dois primeiros, podemos especular o próximo passo do título após terminar o actual. Ou segue uma trajectória semelhante à do cenário 1, de discreto ressalto seguido de novas quedas, ou um cenário próximo do 2, de forte ressalto. Para já, não é possível vermos qual dos dois é mais provável. Sendo o segundo o mais atractivo, haverá certamente pistas prévias à sua ocorrência. Não é, no entanto, ainda o caso. Não há suportes nem pontos de referência próximos (o mais próximo está nos 5,21 cêntimos). Para se consumar uma inversão, terá ainda de ser criado um novo lower-high e depois quebrado em alta.
Não há, como está bom de ver, qualquer segurança numa entrada neste momento. Nem curta nem longa, o risco é demasiado elevado. Pode até começar já amanhã uma inversão, e até existem sinais de exaustão de movimento, mas abrir agora uma posição é de um risco assustador. Para quem está dentro, sabem a minha opinião relativamente ao arrastar de posições perdedoras. Há 10 anos que bato na mesma tecla sempre que escrevo sobre o assunto, e suspeito que daqui a outros 10 continuarei a fazer referência ao mesmo. Recordem que mesmo que surja um movimento ascendente de 2 ou 3 meses de duração, mesmo que o título suba 50 ou 60% a partir de mínimos, há pressupostos que devem ser considerados e respeitados antes de se avançar com uma entrada longa. É uma questão de princípios financeiros, de sobrevivência de longo prazo, de protecção do nosso portefólio. Digo-o agora, num período conturbado para o título, para que não me acusem mais tarde de o dizer porque o título começou a subir. Protejam-se, sejam prudentes, e façam negócios sábios. O mercado português precisa dos pequenos investidores. 
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