Brexit: Analistas concordam sobre prejuízo imediato, mas não adivinham médio prazo

Agência Lusa

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Um ‘Brexit’ sem acordo terá efeitos inevitavelmente negativos nas economias europeia e do Reino Unido, a curto prazo, mas é difícil adivinhar o impacto a médio e longo prazo, dizem analistas consultados pela Lusa.

Desde o referendo sobre o ‘Brexit’, em junho de 2016, a libra esterlina já caiu mais de 15% e, em 2018, a economia do Reino Unido teve um crescimento de apenas 1,3%, caindo de 1,8% em 2017, e ficando abaixo da média europeia.

Com a saída do Reino Unido, os restantes 27 países podem ter muito pouco a ganhar e os prejuízos em diversas áreas são salientados por vários estudos e por analistas consultados pela Lusa.

Um grupo de investigadores do Instituto para o Governo, um ‘think tank’ britânico, fez uma resenha dos principais estudos sobre o impacto do ‘Brexit’ no Reino Unido e concluiu que a maioria aponta para uma redução substancial do crescimento económico, embora seja difícil antecipar a dimensão dessa quebra.

Sobre o impacto na União Europeia, a maior preocupação centra-se na área do emprego, pelos constrangimentos que uma saída sem acordo ou um ‘hard Brexit’ terão sobre a livre circulação de pessoas e sobre os fluxos de capital.

Um ponto de consenso entre os analistas é que a City londrina, o principal centro financeiro europeu, sofrerá um forte impacto com o ‘Brexit’, com outros países europeus a procurar estratégias para assimilar eventuais vantagens de uma transferência de capitais.

“Em Frankfurt, são várias as empresas que estão a construir infraestruturas para um novo grande centro financeiro europeu, tentando antecipar uma queda da City de Londres”, disse à Lusa Gunther Llose, investigador de Políticas Económicas Europeias da Universidade de Ruhr, em Bochum, na Alemanha.

Uma conta fácil de fazer é a do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) da União a 27, que descerá 14%, como resultado direto e imediato do abandono daquela que é a terceira maior economia da UE, segundo uma simulação da Pordata com base em dados do Eurostat.

Mas os efeitos destas alterações, no Reino Unido e na UE são contas bem mais difíceis, mesmo para os economistas que têm olhado com cuidado para gráficos de previsões.

Ian Begg, do Instituto Europeu da London School of Economics, cita vários estudos e encontra estimativas que indicam uma queda de cerca de dez pontos percentuais no PIB britânico, até 2030 (como o que foi feito pelo próprio Ministério das Finanças britânico), bem como um estudo que indica que, a médio prazo, a economia pode crescer quatro pontos percentuais (do economista Patrick Minford).

“Uma coisa é certa: não encontrei nenhum estudo que indique que a curto prazo haja benefícios para a economia da União Europeia”, explicou à Lusa Ian Begg.

Contudo, o mesmo investigador salienta que há várias opiniões diferentes sobre a permanência deste efeito negativo a médio e longo prazo, remetendo os efeitos de curto prazo para razões relacionadas com a volatilidade das moedas e das reações dos mercados financeiros.

Ricardo Reis, economista e professor na London School of Economics, não hesita em admitir o impacto negativo de um ‘hard Brexit’, a curto prazo, sobretudo pela incerteza que a situação provoca junto dos investidores.

Já sobre o impacto político do ‘Brexit’ na Europa, os analistas não se entendem.

Alguns estudos indicam o risco de aumento de movimentos partidários mais radicais, com ideias anti-imigração, que poderão provocar a desagregação da União Europeia.

Contudo, outros investigadores dizem que uma saída caótica do Reino Unido apenas reforçará o espírito de união do 27 e que este episódio pode ter o efeito de uma “vacina” contra eventuais tentações de outros países para abandonarem a comunidade.

Seja como for, dizem esses especialistas, a incerteza política terá sempre consequências económicas, seja para a Europa seja para os seus parceiros mais próximos, como é o caso dos EUA.

No dia seguinte ao referendo, em 2016, o índice Dow Jones caiu 610 pontos e a libra e o euro desvalorizaram, deixando o dólar mais caro, o que não é bom para a estratégia da Reserva Federal dos EUA, nem para os exportadores norte-americanos.

Ian Begg explica que o ‘Brexit’ é um “voto contra a globalização” e retira o Reino Unido do lugar proeminente que até agora ocupa no mundo financeiro, com consequências que, neste momento, são muito difíceis de prever e ainda menos de controlar.

A decisão anunciada no início deste ano pela construtora automóvel Honda de fechar as fábricas no Reino Unido fez também tocar as sirenas de alarme, segundo os analistas, que salientam os milhares de despedimentos que provocará, aumentando a incerteza sobre a evolução do setor.

Um relatório de 2018 da Comissão Europeia das Regiões indica quais as zonas da Europa mais afetadas em diversos setores económicos, com o ‘Brexit’, e mostra como, no setor dos veículos de transporte, Estugarda e Niederbayern (Alemanha) serão as mais afetadas.

No setor de eletrónica, serão as regiões de Zapadne Slovensko, na Eslováquia, e Morávia, na República Checa, as mais prejudicadas.

E no setor dos têxteis, o norte de Portugal aparece como o mais afetado, juntamente com a região da Toscana, em Itália, se não houver medidas de precaução na saída do Reino Unido.

“Sabemos quem vai perder. Ainda não sabemos quem irá ganhar, com o ‘Brexit’, aconteça ele como acontecer”, conclui Gunther Llose, da Universidade de Ruhr, em Bochum.

RJP // EL

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