Deve o short selling ser banido para sempre dos mercados?

Tiago Esteves
O Governo Espanhol decidiu ontem percorrer o caminho mais populista, suspendendo o short selling por um período de três meses, período que poderá ser alargado caso se identifique essa necessidade. Já se lhe seguiu o Governo Italiano, com uma suspensão de uma semana nos títulos ligados ao sector financeiro. Será desta que a crise chega ao fim?

A história já fez questão de clarificar por diversas vezes que esta medida tem tanto de popular quanto de ineficaz. Disfarçam-se os factores na origem dos problemas (geralmente a incompetência governamental), culpando-se os especuladores sem coração de todos os males que vêm ao mundo.
Mas… o que é afinal o short selling? O short selling é a prática que permite aos intervenientes no mercado ganhar com as quedas das cotações. Como? Vende-se um activo que nos foi emprestado e recompra-se mais tarde a um preço que se espera inferior, ganhando a diferença entre o preço da venda inicial (mais elevado) e o preço da posterior compra (mais baixo). 

Peguemos num exemplo concreto. Há uns anos atrás eu suspeitava que o mercado habitacional iria cair drasticamente. Então, pedia emprestada a um amigo uma casa que ele utilizava esporadicamente com o compromisso de lha devolver anos mais tarde, pagando-lhe durante o periodo de empréstimo uma renda compensatória. Em 2007 teria vendido o imóvel em causa por 200 mil euros.
Agudizando-se a crise, decido recomprar a casa em 2012 por 150 mil euros, aproveitando a forte desvalorização sofrida. Assim, teria lucrado os 50 mil euros da diferença, menos as rendas pagas ao meu amigo durante o período em causa. Apesar de o mercado habitacional ser pouco líquido, podendo o novo proprietário do imóvel recusar-se a vender, o exemplo em causa serve para se compreender o mecanismo que permite ter lucro com o processo de short selling ou venda curta.

Vejamos outro exemplo. Na década passada eu pensava que o ouro estava a preços exorbitantes e que o seu preço iria cair nos próximos anos. Pedia então uma onça emprestada para proceder à sua venda por 300 dólares, com o mesmo compromisso de devolver essa onça mais tarde, pagando também uma “renda” a quem me tinha feito o empréstimo. Em 2012 eu concluo que o meu raciocínio inicial estava errado, procedendo à recompra da onça de  ouro por 1550 dólares. Ignorando a flutuação cambial, perdi nesta década mais de 400%, valor ao qual acresceria o juro pago. 
Uma perda exacerbada devida a um dos maiores perigos do short selling, a possibilidade de sofrermos umas perda superior ao valor do nosso património.

Se neste exemplo tivemos uma década para emendar um erro de juízo, em muitos casos de negociação em empresas temos disparos intra-diários totalmente imprevisíveis que poderão levar à falência de uma carteira.
Como pode ver-se, os especuladores incorrem em grandes riscos e não se enriquece pelo simples facto de se abrirem posições curtas! Sendo o short selling uma medida tão perigosa, só por si existe uma forte auto-regulação, fundamental para não se incorrer numa falência precoce. 

E serão os shorts assim tão prejudiciais aos mercados financeiros? Não, pelo contrário. O short selling traz liquidez ao mercado e suaviza os movimentos de alta e de baixa. De alta porque os shorts abrem posições na esperança que o movimento inverta, ou porque já não aguentam a perda acumulada e são obrigados a encerrar a posição. E de baixa porque os shorts tomam mais-valias nas posições lucrativas durante o movimento, aumentando assim a pressão compradora num momento em que poucos se arriscam a comprar. A ajudar aos movimentos de alta temos ainda os denominados short squeezes, movimentos caracterizados pelo disparo em cadeia dos stop-losses das posições curtas, levando este processo à acentuação dos movimentos de subida.

Por outro lado, e a menos que estejamos a falar de naked short selling (vender uma posição que na prática não existe), para haver um short teve de existir anteriormente uma compra, com a consequente pressão compradora. É essa compra que possibilitará o empréstimo para se proceder à venda a descoberto.

Então, por que motivo subiram os mercados quando Espanha anunciou essa medida? Geralmente essa subida é temporária e insustentada. Acontece pelo encerramento forçado das posições curtas, que fazem aumentar a pressão compradora devido à recompra da posição que tem de ser devolvida. Esgotando-se essa pressão compradora regressam as quedas.

Respondendo à pergunta que deu origem ao post, o short selling não deverá ser banido nem temporariamente nem definitivamente dos mercados. É parte integrante do “ecossistema” financeiro e quaisquer tentativas de manipulação acabam por gerar reacções negativas em cadeia. Se não se pensa em banir o short selling quando um short squeeze está por detrás de uma subida de 5%, até por uma questão de equidade se torna ridículo banir o short selling só porque o mercado cai 5%. Tratem-se as causas dos problemas em vez de se despender preciosa energia na caça aos gambuzinos…

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