EDP – A verdadeira jogada estratégica por detrás da OPA

Tiago Esteves

 

O assunto do momento em Portugal, e não só entre os amantes dos mercados financeiros, é a OPA que os chineses da China Three Gorges (CTG) anunciaram no final do dia de sexta-feira. Pretendo neste artigo ir um pouco além do relato dos factos (para um resumo dos mesmos deverão consultar esta notícia), e entrar um pouco no campo especulativo. Deixem-me partilhar a minha visão polémica relativamente a este negócio: Na minha opinião, a CTG não quer ter sucesso nesta OPA! Apenas quer subir o preço de forma especulativa de forma a dificultar uma OPA agressiva por parte das contrapartes que têm vindo a mostrar interesse relativamente ao negócio nos últimos meses. Ou, caso tal OPA de terceiros aconteça, assegurarem que recebem mais do que os 3,45€ por acção que pagaram em 2011 por 21,35% da empresa. Sustento esta minha opinião em três factores fundamentais: O timing, o preço e os rumores.

O timing

Toda a gente sabe que lançar uma OPA em fase terminal de bull market é uma péssima ideia. Os investidores estão em modo optimista, e o nível de exigência para com o preço da OPA sobe de forma exponencial. Lançar uma OPA nesta fase provoca o que iremos ver amanhã com elevado grau de probabilidade, uma subida especulativa do preço, muito acima do nível que está a ser oferecido (neste caso, 3,26€ por acção). Muito me espantaria se amanhã o mercado não atribuísse imediatamente à EDP, em gap up, um preço já muito superior aos tais 3,4€ que a CTG pagou há 7 anos.

O preço

O preço oferecido é obviamente baixo. Tão óbvio que só pode soar a propositado. Fazer uma tentativa de OPA a uma Blue Chip com acção estratégica e que age em regime de semi-domínio de mercado, que tem rendas garantidas e acabou de pagar 700 milhões de euros de dividendos (representa uma yield superior a 6% a preços de fecho) não pode ser para levar a sério. Pegando contudo na minha teoria semi-conspiratória, este preço seria um golpe de génio no sentido de fazer acelerar a subida da cotação. O mercado percepciona o preço oferecido como demasiado baixo, reage (como habitualmente) de forma excessiva, e coloca o preço para OPAs concorrentes num patamar elevadíssimo. Diria que, considerando o fecho em outros mercados, é provável que a EDP tenha amanhã um preço de abertura que rondará os 3,55€ (é provável que o preço venha a corrigir durante a sessão e feche em volta dos 3,4€). Se assim for, outros interessados teriam de lançar uma OPA a valores superiores a 3,6-3,7€, o que traria o preço a níveis de pico de ciclo. Preço ainda interessante o suficiente para fazer a OPA acontecer  (a yield, por exemplo, apenas cairia para os 5%), mas garantindo já um prémio significativo aos chineses da CTG face ao pago em 2011.

Os rumores

O terceiro factor que me leva a duvidar da verdadeira natureza desta OPA passa pelos rumores de que será o próprio António Mexia a mover actualmente o mercado para se vir a organizar uma OPA alternativa à da CTG. Uma vez mais, o rumor é de tal forma descabido face ao que se espera de um CEO numa altura destas, que soa a notícia encomendada para empurrar o preço. CEO esse a quem já teria sido assegurado o lugar caso a OPA tivesse sucesso… Se repararem, nem 24 horas depois de a OPA ter sido anunciada, já se especulava relativamente a esta possibilidade. O que me parece indiciar uma especulação previamente calculada, com objectivo único.

 

 

Conclusão

Há uma série de outros factores que dificultam a efectivação desta OPA aos chineses da CTG (bem sumariados pelo Expresso neste artigo), e que não seriam na sua maioria tão impeditivos para uma empresa europeia. A CTG sabe disso, e só lhes resta portanto dificultar via preço que tal aconteça, ou então tirar o máximo partido da situação. Eu diria que existe uma probabilidade de 95% de não se vir a efectivar uma OPA nos termos (entenda-se, preço) actuais. Os chineses sabem-no, e estão agora sentados no sofá à espera que o mercado faça a sua parte e obrigue outros potenciais interessados a mexer cordelinhos. Arrisco mesmo dizer que foi um golpe de génio, de onde eles só poderão sair beneficiados.

P.S.: Uma palavra final para a EDP Renováveis. Não acham estranho que a proposta de OPA fosse a preço inferior ao da cotação actual?

_____________________________________________________________________

 

 

Lista de Comentários

  • João Pinto 14 / 05 / 2018 Reply

    Caro Tiago Esteves,

    Laboras em erro. Não totalmente, a meu ver. Mas no fundamental laboras num erro.
    E vou tentar por desmontar os teus argumentos, começando pelo fim.
    1.º A CTG ofereceu um preço baixo pela EDPR porque não está interessada em retirar a EDPR da bolsa. Pelo menos para já. E disso já deu conta o Mexia. Ofereceu um preço mixuruco por imposição legal. Tinha de fazer uma oferta pela EDPR.
    2.º O lançamento da OPA tem intuitos de fazer subir a cotação da EDP. Claramente, e neste ponto dou-te razão. E para afastar eventuais (e presumidas) ofertas por empresas do sector. A CTG apenas quis dizer ao mercado: atenção nós estamos aqui e estamos atentas. E temos MUITO DINHEIRO.
    3.º Os chineses não vendem a EDP. Por preço algum. A EDP é uma empresa estratégica (ou geopolítica) para os interesses da China. A China quer conquistar o mundo não pela força das armas mas através dos negócios. Como a Espanha tem feito com Portugal. É algo semelhante. A China tem uma estratégia, tem um plano e tem dinheiro para isso.
    4. Por isso até gostava de ver surgir uma oferta concorrente para te aperceberes da tua falta de razão. Mas não acredito que surja uma oferta concorrente. Vão estar caladinhos e quietinhos metendo o rabo entre as pernas.
    4. Não é verdade que a cotação actual da EDP seja alta. Basta olhar para as cotações históricas da EDP nos anos mais recentes.
    5.º Quero acreditar que o lançamento da OPA, horas após o Mexia ter feito um desenho com traços sombrios sobre futuro próximo da EDP, não é obra do acaso. O Mexia está claramente alinhado com a CTG e não com os interesses dos fundos americanos como ouço por aí. Mas estes fundos acabam por beneficiar da OPA.
    6.º Acredito quer a CTG não acredite no sucesso da operação. Esta OPA serve apenas para tomar o pulso ao mercado. E ver como reage o mercado. Mas se a OPA for para o mercado, acho que vão aceitar ficar com o máximo de ações da EDP que conseguirem.
    Um abraço.

    • Tiago Esteves
      Tiago Esteves 15 / 05 / 2018 Reply

      Olá João. Diría que no essencial estamos de acordo. A questão será se a CTG está disposta ou não a vender. Eu diria que pelo preço certo estarão, mas não discordo da possibilidade de pagarem um preço superior ao de uma potencial OPA de concorrentes por motivos geopolíticos

Deixe uma resposta