A era da baixa volatilidade poderá ter terminado

Tiago Esteves

Poucos dias após ter manifestado a minha confiança no movimento ascendente do PSI20, reitero que em breve deveremos ver os índices a aproximar-se novamente de máximos. Contudo, receio que o mesmo não possa ser dito a respeito da negociação em ambiente de baixa volatilidade. Mesmo que o bull market não tenha terminado (acredito que não tenha), a anormalmente baixa volatilidade que até aqui se fazia sentir nos mercados pode ter os dias contados.

Importa começar por dar algum contexto a esta perspectiva. O tradicional mercado accionista americano tem vindo a transformar-se gradualmente num mercado dominado por algoritmos e ETF’s. A respeito deste segundo, o volume de ETF’s aumentou 16% em 2017 face a 2016, e 50% face a 2015 (fonte). À semelhança do que se assistiu durante a crise de 2008, os ETF’s já representam mais de 30% do valor total de negociação no mercado.

Por que motivo é isto preocupante e/ou relevante, perguntar-se-ão? Em primeiro lugar, porque o perfil de quem negoceia ETF’s tende a ser distinto dos que negoceiam activos de forma directa ou mesmo fundos especializados. O volume de traders inexperientes que entraram no mercado nos últimos 107 meses de bull market (!!), e que pensam que o mercado só tem uma direcção, fazem com que qualquer movimento fora do que conhecem como normal seja amplificado nas duas direcções. Isto, por definição, resulta num aumento da volatilidade. Por outro lado, a gestão passiva  (geralmente) associada aos ETF faz com que as preocupações e euforias dos investidores se reflictam de imediato no mercado, algo que por exemplo não acontece em grande parte do capital gerido por hedge funds.

Exploraria, se mo permitem, a questão da inexperiência dos investidores. Apesar de não ter dados objectivos que o corroborem, acredito que grande parte destes “novos investidores” vejam a sua aversão à perda aumentar dramaticamente após os 10% de drawdown (por ser o patamar geralmente associado a uma perda máxima confortável). A queda no SP500 atingiu os 9,67%, valor marginalmente acima do limite mencionado. Este susto terá certamente accionado os radares de prudência, e ao mínimo movimento descendente podemos ter alguns milhões de investidores a carregar nos gatilhos. A reforçar este sentimento está a história recente da Bitcoin, que após uma subida fulgorante acabou por desvalorizar 65% em menos de 2 meses. É uma óbvia associação que começará a ser feita ao mínimo sinal de retracção do mercado, gerando depois euforia de recompra se o mercado voltar a recuperar.

(a propósito, a Bitcoin activou recentemente dois padrões de inversão que poderão galvanizar uma recuperação de curto prazo)

Temos ainda o VIX, que para quem não sabe não é um índice de volatilidade per se, mas sim um “contador de seguros”. O VIX mede, de uma forma simplista, a quantidade de opções transaccionadas que visam proteger os investidores da queda do mercado. Significa isto em termos práticos que quanto maior é o número de opções negociadas, maior é a desconfiança por parte dos investidores relativamente à probabilidade de o bull market continuar. Este factor está historicamente associado a volatilidade, e de facto a correlação entre ambos é bastante forte. E apesar de este índice ainda estar situado em níveis que não são preocupantes, à medida que a volatilidade aumenta de forma sustentada, os investidores com um perfil mais agressivo voltam a ter apetite pelo mercado accionista.

Conclusão

Apesar de estarmos perante um manancial de condições para que algo negativo aconteça, creio que para já o bull market está relativamente resguardado. A confiança ainda está em alta, e a economia vai suportando de forma moderada essa confiança. A correcção, por si, também não foi surpreendente nem sequer novidade neste bull market (de recordar que já em 2015 tivemos uma queda superior a 10% numa semana. A confiança, após esta ocorrência, demorou cerca de 1 ano a ser devidamente restaurada). Contudo, a reunião destes factores poderá levar a um aumento do nervosismo no mercado, e à consequente escalada de volatilidade. E apesar de a volatilidade não ser, de si, algo mau, caso a mesma comece a atingir níveis pouco habituais pode levar a um movimento de sell-off generalizado.


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