Eventual oportunidade de rentabilidade anualizada de 25% no mercado obrigacionista (Ex- Portugal Telecom)

Tiago Esteves
Num momento em que o mercado accionista vive tempos de alguma incerteza, deixo uma sugestão para o mercado obrigacionista. A emissão de obrigações da antiga Portugal Telecom, cuja responsabilidade transitou para a OI por via da Portugal Telecom International Finance, encontra-se aparentemente subavaliada face ao seu potencial valor. A emissão PTPTCYOM0008, que tem maturidade a 26 de Julho de 2016 (ou seja, daqui a 6 meses) está a cotar a 90% e tem um cupão de 6,25%. Significa isso que, se a OI tiver capacidade de reembolsar a emissão, este negócio poderá render uma taxa anual efectiva líquida que ronda os 25% (valor anualizado, como o nome indica). 
Ora, mas o cerne do negócio não está aqui. A grande questão, como sempre que se fala em obrigações, passa por saber se a empresa tem ou não capacidade de devolver o dinheiro emprestado. Muito se tem especulado a esse respeito nos últimos meses, havendo inclusive notícias que apontavam para uma eventual reestruturação da dívida por parte da empresa (e daí se explica estarem a cotar abaixo do par). A novidade relativamente a esta questão surgiu na semana passada, com a notícia que o China Development Bank emprestou 1,2 mil milhões de dólares à empresa com vista a investimento e a pagamento de dívida que vence em 2016 (50/50). 
Curiosamente (ou talvez não), a emissão PTPTCYOM0008 corresponde a um total de 600 milhões de euros, dos quais cerca de 56 milhões  foram já amortizados. Assim, mesmo sem contar com o dinheiro em caixa, a OI parece ter condições suficientes para pagar esta dívida que herdou. O mercado, por algum motivo que me custa a identificar, está a demorar a adaptar-se a esta realidade e continua com um preço teórico bem abaixo do par. Desde que a notícia foi tornada pública, já foi possível negociar este título por valores entre os 90 e os 92%. Com a certeza de que não existem certezas nos mercados, esta parece-me ser sem dúvida uma situação que vale a pena manter debaixo de olho. 

Disclaimer

Como sempre faço quando tenho uma posição num título sobre o qual me manifesto (é o caso, comprei na semana passada), tenham por favor em consideração que a minha opinião está (mesmo que involuntariamente) condicionada por esse facto. Este post não é nem pretende nenhuma recomendação de negócio, apenas uma chamada de atenção.

Lista de Comentários

  • Anónimo 01 / 01 / 2016 Reply

    Sinceramente penso que está a brincar com o fogo. E ainda por cima o combustível desse fogo ( divida e incapacidade da OI de gerar cash) aumenta de dia para dia….

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 02 / 01 / 2016 Reply

    É de facto um risco, caro anónimo. Não poderia ser de outra forma, com um prémio monetário tão grande. É, por si, sinónimo de que o mercado lhe atribui uma importante possibilidade de não pagamento.
    Abraço

  • Anónimo 08 / 01 / 2016 Reply

    Gostei deste artigo…concordo com tudo que disse…infelizmente para mim, que queria entrar no negócio a um preço interessante face ao risco já não fui a tempo. A minha questão tem a ver com o scanning deste tipo de oportunidades. Tem alguma sugestão de como o fazer de forma sistematizada? Por exemplo, nos dois bancos com quem trabalho (BIG e AtivoBank) nenhum tinha a obrigação disponível. Por outro lado, que instituição a seu ver é mais interessante para a negociação de obrigações, nomeadamente no que diz respeito à quantidade de obrigações que disponibiliza e aos custos de negociação? Muito obrigado.

    Cumprimentos,

    José Gonçalves

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 12 / 01 / 2016 Reply

    Olá José,
    Antes de mais, as minhas desculpas por não ter respondido mais cedo ao comentário. Confesso que não tenho nenhum mecanismo de scanning de obrigações. Há alguns sites internacionais que consulto, mas tem um nível de ruído e de risco elevado que nem me atrevo a recomendá-los. O banco carregosa deve ser o melhor em Portugal para negociar obrigações, mas ainda assim tem custos bastante elevados. O Best é o melhor para OPV's, mas os custos de subscrição fora da maturidade são assustadores. Ainda continuamos muito mal servidos neste instrumento em Portugal. Espero ter ajudado 🙂
    Abraço

  • José Gonçalves 08 / 03 / 2016 Reply

    Olá Tiago,

    Que aconteceu com estas obrigações que estão a cotar a 65% e já estiveram menos? Vale a pena investir ou é um presente envenenado? Obrigado.

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 08 / 03 / 2016 Reply

    Olá José,
    Entretanto tinha deixado um update a este post (http://surfaratendencia.blogspot.nl/2016/02/manter-divida-da-pt-em-carteira-podera.html), precisamente uns dias antes de haver esta escalada descendente originada pelos rumores de que a fusão falhará. Pessoalmente não irei comprar, o risco de haircut é real e o mercado está a valorizá-lo de forma claríssima. Também não é menos verdade que existe uma boa probabilidade de retorno total. Mas, para mim pessoalmente, é demasiado arriscado. Vou ficar de fora a ver

  • José Gonçalves 09 / 03 / 2016 Reply

    Olá Tiago,

    Obrigado pela resposta, entretanto já vi o post referido. Eu sei que o tempo nunca é muito, e também não sei se já chegou a fazer, mas acho que seria muito importante e de grande utilidade um webinário ou algo do género sobre negociação de obrigações. Por exemplo, no caso destas obrigações da PT, se existir um default o que acontece? Se a empresa falir ou ficar insolvente? A verdade é que penso que a perda nunca será total uma vez que as empresas falidas têm um valor de liquidação vendendo-se todos os ativos, e penso que por isso o tal potencial haircut se deve medir em função disso e o risco, comprando-se a obrigação a 60% por exemplo, será a diferença para esse valor que se receberá depois do haircut, etc. Ou seja as dúvidas são muitas e penso que muitos outros investidores como eu as temos e ficaríamos gratos se nos ajudasse. Aquele abraço e obrigado.

    José Gonçalves

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