Investir em Obrigações (Parte II)

Tiago Esteves

5: E se eu investir mais do que desejava ou necessitar do dinheiro, posso
resgatá-lo?

Sim, mas terei de vender ao mercado. Significa isso que só ficarei sem elas
se as vender directamente a outra pessoa que as queira. Quando subscrita, uma
obrigação “vale” 100%. Se eu quiser vender as minhas obrigações e
existirem mais vendedores do que compradores terei de baixar o preço para
convencer os compradores a aceitarem comprar. É o efeito da chamada
“pressão vendedora”. Se não existir quem queira comprar a 100% do seu
valor, terei de diminuir a percentagem de cada obrigação para conseguir vender.
Imagine-se que só consigo compradores baixando aos 95%. Significa isso que,
para uma obrigação que valia 1000€, eu venderia cada uma por 950€, assumindo os
50€ restantes como o desconto que tive de fazer para conseguir vender. E se
existir muita pressão compradora? Aí pode dar-se o caso inverso, tendo o
comprador que subir a sua proposta até aos 101-102% para conseguir arranjar um
vendedor disposto a desfazer-se das suas obrigações por um prémio que neste
caso seria de 1-2%. Viu-se isso recentemente nas obrigações da EDP e do FCP,
dois casoa s onde o montante emitido foi largamente superado pelo capital
subscrito.:  
Um caso de pressão vendedora elevada foi o das obrigações do tesouro do
Estado Português. Como muitos investidores ficaram com receio de um eventual
incumprimento, diminuíram drasticamente o seu valor de venda, encontrando-se
ainda actualmente no mercado obrigações do tesouro Português à venda por 75% do
seu valor original.

6: Então existe risco de perda de capital quando se negoceiam obrigações?
Sim. Por duas vias. Em primeiro lugar, pode perder-se dinheiro vendendo ao
mercado a um preço inferior ao da compra. Essa possibilidade de perda é anulada
se deixarmos o dinheiro imobilizado até à maturidade, ou seja, até ao fim do
prazo da obrigação, momento em que o dinheiro é reembolsado. A menos que, se
for uma empresa, essa empresa entre em falência. Caso tal aconteça a empresa
não paga o montante em dívida na maturidade, tendo o obrigacionista de aguardar
que o património da empresa seja liquidado para receber (em parte ou
totalmente) o montante emprestado inicialmente. Se for um Estado, em teoria as
obrigações são mais seguras pois o Estado tem a capacidade de aumentar impostos
para cumprir com as suas obrigações. Na prática, hoje em dia depende do Estado,
pois o Estado pode recusar-se a pagar a totalidade ou uma parte do dinheiro
pedido. Viu-se recentemente na Grécia, poderá ver-se também em Portugal caso o
governo fosse assumido pelo PCP ou BE, por exemplo, partidos que defendem
actualmente que o Estado não deveria pagar as suas obrigações na totalidade.

7:  Como se avalia a rentabilidade de uma obrigação?
Depende. Vamos começar por uma subscrição inicial. Associada à obrigação
está uma taxa de juro, representando a taxa de juro que a empresa/Estado está
disposta a pagar para lhe ser emprestado dinheiro. Pegando em outro exemplo, a
ZON está actualmente a emitir obrigações 6,85%, significando isso que a taxa
oferecida é de 6,85%, taxa bruta. Esta taxa representa a percentagem bruta
anual, apesar de ser comum o pagamento de juros ser fraccionado em pagamentos
semestrais ou em outro tipo de pagamentos (isso varia de obrigação para
obrigação e vem registado no prospecto informativo).
Se formos ao mercado comprar uma obrigação que esteja a 75%, ao valor
oferecido devemos somar os 25% ganhos no momento do reembolso. Situação inversa
no caso de o valor da obrigação estar acima dos 100%. 

8: Além desses factores, que mais devo ter em consideração quando
negoceio obrigações?

É fundamental estar atento às comissões. As obrigações são consideradas
títulos e por isso geralmente os bancos cobram uma taxa trimestral de guarda de
títulos. Além disso existe uma comissão de subscrição e comissão de
resgate, que geralmente ronda os 0,4-0,5% do total, com um valor mínimo de
5-7,5€. Essas taxa rondam os 9-10€ trimestrais, dependendo esses valores do
banco em causa. De referir que geralmente os bancos não cobram comissão de
guarda de títulos para as suas obrigações próprias, o que pode fazer diferença
na nossa análise. Imagine-se que eu quero investir 1000€ em obrigações da ZON,
que pagam a 6,85%, mas o meu banco vai cobrar-me uma taxa de 40€ anuais só pela
guarda de títulos. Nesse caso seria mais rentável subscrever obrigações do
próprio banco, mesmo que este pagasse apenas 6%, pois os 40€ de comissões iriam
anular os 0,85% pagos em excesso pela outra obrigação. Isto se na nossa opinião
a probabilidade de a ZON falir for igual à probabilidade de o nosso banco
falir.

9: E quando é a melhor altura para investir em obrigações?
A taxa de rentabilidade das obrigações tem uma proporcionalidade ligeiramente inversa à estabilidade económica vigente. Isto porque quanto maior é a incerteza económica maior será também a dificuldade de financiamento junto da banca e maiores serão as garantias exigidas pela banca para emprestar. Além de a taxa a emprestar ser geralmente mais elevada nestas ocasiões. Para ajudar a esses factores, geralmente nos climas de maior instabilidade económica os investidores desalavancam o seu investimento nos mercados financeiros, ficando com mais capital disponível para “emprestar”.
 

Comment List

  • iphonix 16 / 06 / 2012 Reply

    Belo post sobre as obrigações!

  • Tiago Esteves 16 / 06 / 2012 Reply

    obrigado:-)

  • Anónimo 16 / 06 / 2012 Reply

    Agradecido, pela informação

  • Tomás Peixoto 24 / 01 / 2014 Reply

    Olá Tiago

    Tenho uma dúvida sobre as obrigações. Imagina que dei uma ordem de compra no valor de 1000 euros com prazo de 1 dia. Apenas foi comprado 400 euros e teve-se que se pagar o valor de imposto e selo a rondar os 10 euros. Ou seja, um mau negócio quase à partida…

    Imagina que tinha dado a mesma ordem mas para um prazo de 10 ou 15 dias. Poderia acontecer esta segmentação, ou seja, 300 euros num dia, 300 euros noutro dia e sempre a pagar o respectivo imposto..? (Claramente bom negócio para os bancos) Ou neste caso, como tinha dado uma ordem de compra com prazo grande, seria comprado na totalidade os 1000 euros e com o pagamento de imposto só uma vez…?

    Desculpa se fui um bocado confuso.
    Obrigado

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 24 / 01 / 2014 Reply

    Olá Tomás,
    Essa questão está muito dependente do intermediário financeiro. Alguns cobram-te por ordem, outros por negócio. A questão que colocas é pertinente, faz sentido que se não é totalmente satisfeita e entretanto é cancelada a restante, partindo do princípio que o teu intermediário te cobra por ordem, a que tem um prazo dilatado seria beneficiada.
    Mas como te digo depende do intermediário, alguns dão-te inclusive a opção "all or nothing".

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