Investir na bolsa é mau para a economia? Não me lixem!

Tiago Esteves
Durante o dia de hoje foram publicadas diversas notícias que, de forma
algo coincidente, acabaram por aumentar ainda mais o descrédito em redor
da negociação nos mercados financeiros no nosso país. Não é algo recente,
infelizmente o fenómeno tem vindo a ganhar volume após o escândalo BES,
com mais um empurrão vindo da PT… Vi e ouvi hoje por inúmeras vezes
comentários do género: “Se o dinheiro que esses especuladores andam a
esbanjar na bolsa fosse metido na economia real, o nosso país não estava
em crise!”.

O nível de ignorância por detrás de um comentário destes choca-me um
pouco, em proporção semelhante ao choque que me traz o teor do mesmo. Vamos retroceder um
pouco e tentar perceber qual é o objectivo primário do investimento em
acções… A ideia passa por adquirir uma parte de uma empresa, e com
isso ter direito ao recebimento de uma parte dos seus lucros. O dinheiro
obtido pela empresa na sua colocação em mercado deverá servir para
ajudar a financiar o seu negócio, gerando assim mais postos de trabalho,
mais impostos e, obviamente, rendimentos para os seus donos – os
accionistas. 
Os “especuladores”, denegridos por fazerem negociação de
curto prazo, são absolutamente fundamentais para fornecerem liquidez ao
mercado, permitindo assim que haja compra e venda disponível a qualquer
hora do dia de negociação. Ao contrário do que se julga, eles não
influenciam significativamente o preço! Apenas aceleram a rapidez do
movimento, aumentando a eficiência do mercado. Veja-se de que adiantou
proibir os shorts sob o BES, ou na PT, ou em tantos outros exemplos… Nada! Esta proibição não impede que o preço continue a cair, apenas altera a sua velocidade. Em vez de termos assistido hoje a uma queda de 50% da Sonae
industria, se os shorts naquele título fossem permitidos o ajuste teria já ocorrido há vários dias, salvando muitos investidores que foram entretanto empurrados por uma falsa ilusão. Haveria, sem dúvida, uma maior eficiência no mercado.
O que acontece é que o conceito de economia de mercado tem vindo a ser
desvirtuado de forma escandalosa em Portugal, por casos de polícia (como os do BES e
da PT) e/ou de chico-espertismo (como os da Cimpor e da Sonae
Industria). Quando chegamos ao ponto de o próprio director da CMVM pedir (numa comissão de inquérito) legislação aos deputados para poder
castigar de forma mais dura as fugas de informação que dão milhões a
ganhar a muita gente, e quando estes assobiam para o lado enquanto o ouvem,
algo de muito errado se passa …
Com a
sucessão destes casos, a confiança de todos os pequenos investidores tem
vindo a perder-se, e é a economia a maior derrotada por esta fuga de
investimento. A alternativa ao investimento em acções não é a
abertura de uma loja, ou de um café! A alternativa será a colocação
deste capital num depósito a prazo com um rendimento inferior ao avanço
da inflação. Sabem o que acontece aqui bem perto, na Alemanha? As
pequenas e médias empresas não estão totalmente dependentes dos bancos para se
financiarem, podem colocar facilmente obrigações junto dos pequenos
investidores, que assim dividem com elas os riscos da actividade e
recebem por isso uma interessante recompensa (8-10% de juro ao ano)
quando as coisas correm bem. Quando correm mal, o prejuízo é igualmente dividido
por todos. 
Ainda ontem ouvia nas notícias que fechou mais uma fábrica de
calçado no Norte do país, desempregando mais de 300 pessoas. Não por
falta de clientes, pelo contrário! Puramente pela falta de capital
disponível para financiar a actividade corrente. Se o nosso nível de
confiança nos mercados financeiros se equiparasse ao que acontece em
países um pouco mais desenvolvidos, a injecção de capital na economia
real não ficaria quase exclusivamente dependente da decisão dos senhores banqueiros. Seriam os investidores, pequenos e grandes (chamemos-lhes mercado), a decidir qual o juro necessário para emprestarem dinheiro a determinada empresa, consoante a percepção de risco associado ao modelo de negócio em causa. Esta alteração teria um enorme potencial de alavancagem da economia, e ao respectivo desenvolvimento
do país. Mas, até que isso venha a acontecer, muita coisa
terá de mudar! Começando precisamente pela mentalidade dos que repudiam um conceito, apenas por ignorarem em pleno o seu funcionamento. 

Lista de Comentários

  • Miguel Pires 02 / 12 / 2014 Reply

    Caro amigo,

    Nem sei como perdeu o seu precioso tempo a escrever este comentário! Isso são apenas sinais de que esta é uma ótima altura para começar a construir uma carteira de ações! E claro, vender quando se ouvir da opinião publica que o negócio das ações é fantástico! É sempre assim – comprar na tempestade, vender na acalmia…!

    Os cães ladram e a caravana passa…

  • FilipeBS 03 / 12 / 2014 Reply

    Excelente exposição! Parabéns!

  • Neo Fun 03 / 12 / 2014 Reply

    Excelente artigo!!

  • Carlos Varandas 03 / 12 / 2014 Reply

    Grande comentário Tiago. Hoje quando vi a evolução da Sonae Industria lembrei-me logo dos comentários aqui no blog que afirmavam que nunca chegaria sequer ao 0,01 nem 0,02. Hoje nem um cêntimo valem.

    Cumprimentos

  • JorgeNevada 03 / 12 / 2014 Reply

    Caro Tiago, excelente artigo

    O problema é que em Portugal, as pessoas que querem investir no mercado são obrigadas a comprar acções de empresas que não são transparentes na apresentação de resultados, ou que enganam os accionistas emprestando metade da sua capitalização de mercado a alguma empresa falida.
    E nesse aspecto, investir nestas empresas do PSI20 tem-se revelado mau para a economia nacional e para o bolso das pessoas.

    Dito isto, acho perfeitamente compreensível este sentimento negativo em relação ao mercado de ações.

  • Anónimo 04 / 12 / 2014 Reply

    Boa noite,

    De facto, é ultrajante assistir ao descrédito e incompetência dos gestores que fazem parte dos quadros das empresas cotadas no PSI desde o crash do Lehman Brothers… é incrível que ainda hoje assistimos: aumentos de capital, excessivo endividamento, falências, "governance" de algumas empresas (Cimpor, PT, Soares da Costa) a ficarem nas mãos de estrangeiros, etc!!!…

    É caricato e uma verdade quando vem a público um título publicado no dia 2 de dezembro na capa do Jornal de Negócios: "Esta Bolsa Não É Pequenos Investidores – Luís Laginha de Sousa"

  • Anónimo 04 / 12 / 2014 Reply

    Boa noite,

    De facto, é ultrajante assistir ao descrédito e incompetência dos gestores que fazem parte dos quadros das empresas cotadas no PSI desde o crash do Lehman Brothers… é incrível que ainda hoje assistimos: aumentos de capital, excessivo endividamento, falências, "governance" de algumas empresas (Cimpor, PT, Soares da Costa) a ficarem nas mãos de estrangeiros, etc!!!…

    É caricato e uma verdade quando vem a público um título publicado no dia 2 de dezembro na capa do Jornal de Negócios: "Esta Bolsa Não É Pequenos Investidores – Luís Laginha de Sousa"

  • Anónimo 05 / 12 / 2014 Reply

    Tenho investimentos em acções em Portugal e em fundos. Actualmente estou a liquidar o investimento em acções do PSI porque acho que as empresas do PSI maltratam quase sistematicamente os pequenos acionistas e o mercado português é pouco transparente e a CMVM ou por falta de instrumentos legislativos ou por captura é pouco interveniente.

    Sobre os pequenos acionistas recordo um artigo recente no Jornal de Negócios que culpava os pequenos acionistas da PT por não terem participado nas Assembleias Gerais. Quando a imprensa econômica é isto está tudo explicado.

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