A minha bola de cristal

Tiago Esteves

Qual de nós, trader, investidor, especulador, seja o que for que nos chamem, nunca pensou: “quem me dera ter uma bola de cristal”. Era tão simples, previa o futuro com 10 minutos de antecedência e o dinheiro desdobrava-se. Era vê-lo crescer, sem parar. Sem dificuldades. Não precisava de me voltar a levantar cedo para ir trabalhar, não aceitaria mais ordens de ninguém. E o sonho continua, comprava isto, comprava aquilo…

Os ambiciosos não são aqueles que têm 10 milhões de euros em património e nunca se contentam com o que têm (pelo menos não são só esses). A ambição e a ganância atingem todos, dos que têm muito aos que não têm quase nada mas que querem ter mais que tudo.
Eu sou ambicioso, sem sombra de dúvida. Se não o fosse não passava horas a ler, a estudar gráficos, a investigar novas formas de aumentar o meu património. Mas esforço-me para que a ambição não me cegue, sei que aí reside a diferença entre o sucesso e a ruína nos mercados. Quando a ambição nos domina e controla, o nosso dinheiro vai esfumar-se. Pode demorar um dia, uma semana, um mês… mas o seu destino está traçado à partida.

Acredito que grande parte dos negócios que fazemos por impulso se devem a essa ambição, sobretudo nos traders menos experientes. Custa muito ver que aquela acção que estivemos a estudar ontem se encontra a subir 8% e nós sem entrar! É tão injusto, pensamos nós! Começam as contas… se eu tivesse entrado ontem eram 8% vezes Y… Dava para comprar o portátil que ando a namorar há mais de seis meses. ” Mas ainda vou a tempo, vou comprar já antes que suba mais. E com o dobro do capital, para compensar a perda do arranque inicial!” Nessa altura, todos os pressupostos que nos tinham levado a olhar para ela no dia anterior estavam já alterados, mas a ambição cega. Minutos depois o mercado começa a corrigir e os 8% positivos passam para 5, depois para 3%… e recomeçam as contas, “o que já perdi dava para comprar o portátil. E na nossa cabeça começam a ouvir-se vozes de condenação, pela atitude irreflectida. A partir de um certo ponto a pressão psicológica é tão grande que esse trader tem de fechar a posição, só assim irá aliviar o sofrimento que sente. E disso resulta uma perda de 5% em menos de nada.

Bem, onde quero eu chegar com esta comovente tragédia grega? A ganância leva à derrota. Quanto mais depressa queremos multiplicar o nosso dinheiro, menos hipóteses teremos de o fazer com sucesso. Se este trader tivesse reavaliado a situação daquela empresa depois do forte movimento que se deu, provavelmente teria conseguido ganhar 1 ou 2% sem grandes riscos. Negociando com regras consegue-se limitar as perdas mais facilmente, consegue-se operar com mais racionalidade, logo conseguem-se melhores resultados no longo prazo. E isso é o mais importante, pois podem passar anos até ao fim desta maratona…

Estamos fartos de saber qual é o “milagre da multiplicação do dinheiro” na bolsa, ganhar de forma sustentada 25-30% ao ano. Não é preciso ganhar 5% num dia, não temos de estar em todas as oportunidades que surgem no mercado. Boas oportunidades há às centenas por esses mercados fora, basta esforçarmo-nos um bocadinho a procurar por elas e não nos entregarmos nos braços das “semi-boas” só porque é mais fácil. Porque mesmo que me continuem a dizer que o dinheiro ganho na bolsa é dinheiro fácil, eu vou continuar a dizer “olhe que não, olhe que não”.

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