O aumento de capital do BES, os direitos de subscrição e a tendência do preço

Tiago Esteves
Tenho recebido nos últimos dias diversos pedidos de esclarecimento no que diz respeito ao processo de aumento de capital do BES, e visto ser uma questão que levantará dúvidas a muita gente, e que está no topo da actualidade em outras instituições, optei por responder em forma de post.

Tanto quanto sei, ainda não está totalmente definido em que moldes será feito o AC do BES, nomeadamente no que diz respeito à atribuição de direitos. O que eu suspeito que acontecerá neste caso é que sejam necessários cinco ou seis direitos para adquirir uma nova acção. Imagine-se que serão cinco, para facilitar os cálculos. Por cada mil acções que eu detivesse iria receber mil direitos, um por acção, e poderia com esses direitos subscrever duzentas novas acções ao preço de desconto, ou seja, a 65 cêntimos.

Mas, e se eu não quiser comprar novas acções? Nesse caso posso e devo vender os meus direitos, já que eles só são transaccionáveis durante um período limitado de tempo e, findo esse período, os direitos são cancelados e o seu valor é perdido (não deixem cancelar os direitos!!). Os direitos são transaccionáveis em mercado, tal como as acções ou as obrigações. O preço de arranque para os direitos é calculado de forma teórica, subtraindo a cotação do dia de referência para o AC ao preço de desconto das novas acções e dividindo pelo número de direitos necessários para subscrever uma acção. Este preço teórico já não se irá registar, porque entretanto o preço das acções caiu e o mercado irá reflectir essa realidade (a menos que entretanto exista um rally ascendente, o que é uma possibilidade e não seria um feito inédito – o BCP, no último AC, subiu fortemente durante 4 sessões antes de depois voltar a cair).

Vejamos um exemplo e a lógica subjacente, para que se compreenda o mecanismo. Imaginemos que as acções estão a transaccionar a 1€ no dia em que arranca a negociação dos direitos e que cada direito dava acesso à compra de uma acção, para facilitação de contas (se forem necessários 5 direitos para subscrever uma acção basta dividir o preço dos direitos por 5). Eu sou um potencial investidor interessado em comprar acções do BES… Posso ir ao mercado comprar acções a 1€ ou ir ao mercado secundário comprar direitos que me permitam comprar acções a 65 cêntimos.

O que me levaria a seguir este caminho alternativo? Obviamente, um potencial negócio mais atractivo. Para que isso acontecesse, os direitos teriam de estar no máximo a 34 centimos! 65+34=99 cêntimos por acção, o que representaria um prémio de 1 cêntimo face à compra no mercado primário. Certo?

Vejamos agora a lógica oposta, a lógica do investidor que tem os direitos mas não quer participar no aumento de capital. O que faz ele? Vende os direitos, o mais rapidamente possível, para que o valor destes não baixe entretanto e para que não os deixe cancelar. Quando há muitos direitos à venda por 34, e se eu quero despachar-me desta dor de cabeça, baixo o preço de venda. E o preço cai. Isto é logica de mercado, fácil de compreender.

Imagine-se que os direitos caem para os 30 cêntimos… Por que motivo haveria alguém de comprar acções no mercado primário a 1€ se os direitos estivessem a atribuir naquele momento um valor teórico de 30+65=95 cêntimos aos títulos? O único motivo tem a ver com a maior facilidade de alienação dos títulos adquiridos no mercado tradicional, que não estão sujeitos à restrição de transacção durante 180 dias das novas acções. Mas isso só justifica a diferença de preço até certo ponto, e é por esse motivo que o valor das acções no mercado primário tende a convergir para o valor teórico da soma entre o valor dos direitos e o valor das novas acções.

Qual é o problema, neste caso? Os accionistas de referência não têm dinheiro, e por isso ponderam vender os direitos, ou pelo menos uma parte deles. Significado? O preço dos direitos vai cair… Significado? Isso vai gerar panic sell nos pequenos investidores, e o preço dos direitos pode convergir, como já aconteceu por diversas vezes, para 1 cêntimo. Isso nem sempre acontece, e até acredito que neste caso não cheguemos tão abaixo, mas os 10 cêntimos ou algo que o valha são altamente prováveis (ou 2 cêntimos, se forem necessários os 5 direitos para compra de uma acção).

O que aconteceria se os direitos fossem transaccionados a 10 cêntimos? Exacto, o preço das acções do BES cairia para os 75-80 cêntimos… E é isso que provavelmente acontecerá logo que os direitos comecem a ser negociados…

(Actualizado a 18-5 para introduzir alterações referentes ao mecanismo dos direitos)

Lista de Comentários

  • Pedro Silva 17 / 05 / 2014 Reply

    Olá Tiago, obrigado pelo post esclarecedor.
    Aqui vão umas questões:

    – Em que plataformas vai ser possível observar a evolução do preço dos direitos?
    – Em que plataforma poderemos transaccionar esses direitos?
    – Como é que, depois, se convertem esses direitos em ações do BES?

    e por fim,

    – Compreendo que numa AC o preço da cotada que o está a efectuar tenda a convergir para o valor do direito + preço as ações em desconto. Mas no caso do BANIF as ações estão ao mesmo preço do que estarão no AC. Isso significa que no caso do BANIF não há esse modelo dos direitos?
    Porque é que haveria alguém de comprar ações em AC se no mercado primário o preço é o mesmo?

  • Daniel Pires 17 / 05 / 2014 Reply

    parece que coloquei o meu comentario deste post nos comentarios do anterior post…

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 17 / 05 / 2014 Reply

    Pedro,
    Depende muito entre corretoras. Os direios ficam disponíveis na corretora ou banco que tem as acções. A conversão, da última vez que eu participei numa coisa destas, era ao balcão, através do preenchimento de um impresso. Hoje deve ser online, provavelmente. Mas, uma vez mais, dependerá entre instituições.

    No banif, teoricamente, cada 7 acções dão direito a comprar uma nova. Mas, dada a situação ultra-ridícula do preço, provavelmente os direitos não terão valor transaccionável, darão apenas prioridade. Penso que os direitos, quando transaccionáveis, só podem valer um cêntimo. Neste caso não faria sentido….
    Porque haveria alguém de comprar acções em AC ao mesmo preço do mercado primário? Por nada… daí a necessidade de se fazerem anúncios televisivos. Para caçar patos… A dar-se a eventualidade de o preço cair abaixo do cêntimo a situação tornava-se ainda mais ridícula!

  • Pedro Silva 17 / 05 / 2014 Reply

    Obrigado pela resposta Tiago!

    Deixo aqui, já agora, uma sugestão: um update gráfico à Jerónimo Martins.. a mim parece-me estar-se a esgotar o sentimento negativo, e penso que podem haver condições para uma inversão de tendencia.. a mim até me parece estar a acabar de desenhar um IHS que vem desde fim de janeiro.

    abraço

  • Storgoff 18 / 05 / 2014 Reply

    Relativamente ao facto de o BES não ter clarificado como é que serão atribuídos os direitos de subscrição, o normal é que seja emitido 1 direito por cada acção existente.

    Depois, de acordo com o rácio:

    Acções existentes / Acções novas

    ficará definido o nº de direitos necessários para poder compra 1 acção nova a 65cts.

    Costuma ser esta a regra e aqui não acredito que seja diferente. De qualquer forma este aparte não põe em causa o restante raciocínio que desenvolveste com o qual até concordo

  • Anónimo 18 / 05 / 2014 Reply

    Bom dia e muito obrigado pelo refrear de qualquer expectativa que pudesse existir quanto ao AC do BES – do BANIF estava refreado à nascença 🙂
    Apenas para saber, como se passa o processo dos direitos em cfd’s.
    Já agora gostaria de pedir-lhe o seu parecer sobre algumas questões relacionadas:
    – Este processo do BES, além de arrastrar consigo todos os ganhos inerentes aos últimos tempos da cotada, implicará ser mais um peso para continuar a fazer cair o PSI20;
    – Pensa que o BCP irá necessariamente pelo mesmo caminho, ou seja, mais cedo ou mais tarde optará por um AC? Se pensa que sim, é possível prever um período temporal para tal?
    – O BPI está fora de qualquer cenário de AC ou também se pode «juntar à festa»?
    – Por último, com tanta neblina no actual momento da banca portuguesa, o melhor é mesmo ficar neutro até a situação se clarificar seja por dados da AF ou de AT. Concorda?
    Desculpe a quantidade de perguntas mas é a primeira vez que estou a assistir mais de perto a AC’s.
    Cmps,

    Almiro Neves

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 18 / 05 / 2014 Reply

    Tens toda a razão, Storgoff. Já não me lembrava disso… introduzi alterações no texto para reflectir essa questão.

    Almiro,
    – Penso que via CFD também tem "direito" a receber direitos, mas não estou seguro. É melhor perguntar directamente ao seu broker (e depois diga-me a resposta 🙂 )
    – Concordo, a verificar-se o deslize do BES é provável que o PSI seja arrastado. No entanto, é possível que vejamos o BES ressaltar antes do início de negociação dos direitos
    – Sim, acredito que o rumor se venha a verificar com o BCP. Se for para provisionar o banco antes dos testes de stress será para breve, antes de estes começarem.
    – Não, o BPI pode juntar-se aos AC. Não é certo, mas é possível. Sinceramente não sei como estão os níveis de provisionamento do BPI, mas terão certamente interesse em reembolsar a ajuda recebida.
    – Concordo, na dúvida prefiro proteger o meu capital e ficar de fora. Posso perder um grande negócio, é certo, mas perco-o com a certeza de ter feito o mais prudente e sensato.
    Não se preocupe, eu vou respondendo ao que souber 🙂

  • Anónimo 18 / 05 / 2014 Reply

    Boa noite

    Gostava de partilhar aqui que no dia que o BCP pediu ao BdP para pagar os 400 milhões, também pediu autorização às finanças para o aumento de capital. Eu tive acesso a esta informação um ou dois dias antes de ser publicado no econômico, infelizmente os bancos deixam escapar informação e os actuais acionistas pagam caro pela especulação! Por exemplo, se o econômico não publicasse a notícia, e o banco anunciasse em primeira mão o AC, o desconto seriam de 38,5% de 1,22 euros e não 1,06 euros…
    Bruno Patinha da Costa

  • Storgoff 19 / 05 / 2014 Reply

    Quem detem CFD´s se não fechar a posição antes do dia de ex-rights, serão lhe creditados mais CFds na conta, correspondente ao nº de acções que receberia se fosse ao aumento de capital.

    Quer esteja longo ou curto a sua posição passa automaticamente a controlar mais CFD´s. Portanto cuidado com as margens .
    Se estas ja estiverem no limite provavelmente o MarketMaker fecha automaticamente a posição mas ja contabilizando os CFDs extra o que pode ser altamente penalizador.

  • Anónimo 20 / 05 / 2014 Reply

    Boa noite Tiago
    Ao que parece os direitos de preferência são por cada 2,5 ações, 1 direito. Só não entendo uma coisa, um investidor que não é acionista pode simplesmente comprar as ações a 65 cêntimos? Se for assim toda a gente vendia já as suas, não?
    Obrigado
    Bruno Patinha da Costa

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 24 / 05 / 2014 Reply

    Bruno,
    Peço desculpa, deixei esta questão por responder. Só podem comprar estas novas acções os investidores que tenham em sua posse os direitos. Para comprarem 2 novas acções necessitam de deter 5 direitos e exercê-los.

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