O desmoronamento do petróleo – Causas e consequências

Tiago Esteves
A vertiginosa queda dos preços do petróleo a que temos vindo a assistir nas últimas semanas não é propriamente uma novidade, parecendo um dejá vu do passado relativamente recente. Não deixa, ainda assim, de ser surpreendente pela sua rapidez e por ocorrer durante um dos ciclos de mercado mais positivos das últimas décadas. Desta vez a surpresa reside sobretudo na motivação para esta queda, pelos traços de guerrilha económica que lhe estão  inerentes. 
A Arábia Saudita tem vindo a ser apontada como o principal responsável por este movimento, por ter aumentado a sua produção e diminuído os preços de venda por grosso, mas a génese da problemática vem de trás. Há relativamente pouco tempo, os Estados Unidos desenvolveram uma nova técnica de extracção de petróleo sintético (shale oil) e gás natural. Apesar de ser um técnica mais dispendiosa, acabou por aproximar o país da auto-sustentabilidade energética, o que gerou um desequilíbrio na balança internacional desta matéria prima. 
De repente a oferta começou a ultrapassar a procura, e ninguém quis dar o primeiro passo no sentido do corte sustentado de produção! Sendo a Arábia Saudita um dos países do mundo com menor custo de exploração (cerca de 25 dólares por barril), decidiram partir para o ataque. Pensavam eles que, ao inundar o mercado e ao diminuir o preço de venda por grosso, fariam o preço cair o suficiente para provocar o colapso das exploradoras de shale oil (cujo custo de extracção de aproxima dos 80 dólares) . Para o fazerem, acumularam 800 mil milhões de dólares em cash, para resistirem a um período onde o preço do petróleo iria certamente diminuir. Eliminando estes oponentes, no longo prazo receberiam os dividendos, já que os preços voltariam a subir devido à diminuição da oferta no mercado. Em conluio com esta medida, a OPEP decide manter os níveis de extracção, também na expectativa de uma queda rápida de preços e subsequente falência dos principais competidores.
O plano é excelente, mas tem um pequeno problema! Os principais produtores de shale oil anteciparam esse movimento e fizeram hedging à possível queda da matéria prima via mercado de futuros. Ou seja, shortaram o petróleo para se assegurarem que não perdiam dinheiro se o preço do petróleo caísse, fixando assim um preço de venda muito acima do actual preço de mercado. Simplificando ainda mais, asseguraram-se de que, mesmo que o preço a que vendem o petróleo esteja abaixo do preço a que o produzem, ainda assim têm lucro! Apesar de não se saber ao certo até quando estará feita esta cobertura de risco, estima-se que as maiores empresas de shale oil estejam protegidas dos baixos preços até pelo menos 2017. Esta brilhante medida terá baralhado as contas aos principais membros da OPEP, que apesar de terem reservas de cash, têm uma brutal dependência económica das receitas geradas por esta matéria-prima. 
E isso significa que não basta ter custos de exploração baixos, já que a economia de muitos destes países é tão dependente do petróleo que necessitam de uma significativa margem de lucro por barril para conseguirem subsistir sem entrar em défice financeiro. Para se ter uma ideia, apesar dos 25 dólares de custo de exploração que a Arábia tem, necessita de um preço por barril de 80 dólares para suportar as despesas do Reino. Abaixo desse nível, e para manter o faustoso estilo de vida dos seus príncipes, será necessário consumir uma parte das reservas financeiras. Isso é o resultado de uma dependência de petróleo para a economia superior a 90%! Ora, mesmo com os 800 mil milhões de dólares que estão reservados (equivalentes ao PIB de um ano), dificilmente aguentarão este nível de preços durante muito mais tempo. Nem tanto por eles, mas sobretudo pelos membros da OPEP que foram apanhados desprevenidos! Veja-se o caso da Venezuela, que tem uma dependência económica das receitas do petróleo em pouco mais de 50% do PIB, mas que mesmo assim deixou recentemente por pagar uma nota de dívida por falta de margem financeira. Para que haja um equilíbrio financeiro na Venezuela, o preço do petróleo teria de estar muito acima dos 100 dólares, o que parece muito difícil a estes níveis. Outros países, como a Rússia, necessitam também do petróleo acima de 100 dólares para manterem a subsistência económica, e mesmo não pertencendo à OPEP, começarão a tomar diligências para que algo seja feito no sentido de aumentar os preços do petróleo (espero que isso não passe por um conflito mais severo com o Ocidente).
O que acontecerá se nada for feito e o preço continuar a cair?
Muito provavelmente começarão a surgir tumultos sociais nos países mais afectados, à medida que o dinheiro para “acalmar” a população começar a escassear. Não me espantaria também se houvesse uma nova intervenção no Médio Oriente, com uma justificação democrática por detrás, de forma a alterar a balança de forças dos países produtores. Quem perde e quem ganha com toda esta queda? Os países exploradores são os principais perdedores, como é fácil de ver, já que a tentativa de desestabilização do shale oil deverá ser infrutífera! Poder-se-ia pensar que a diminuição dos preços da energia beneficiaria a Europa, por diminuir as importações. Mas isso só é verdade até certo ponto, já que começa a agravar seriamente o risco de deflação e estanca as exportações para os países exploradores! Veja-se o caso português, que verá a exportação de bens para a Rússia continuar a cair mesmo que sejam levantadas as penalizações a este país, ou a exportação de produtos de luxo para Angola, ou a criação de obra em países produtores, tudo projectos que serão desafiados pela austeridade que terá de ser imposta nestes países para que as suas balanças comerciais voltem ao ponto de equilíbrio. Os Estados Unidos perdem, da mesma forma, capacidade de exportação, o que desacelera a economia. Ganhará a Ucrânia, pelo enfraquecimento económico da Rússia, ganhará a China por ter uma forte dependência energética (perdendo, na mesma medida, se houver uma recessão global), ganharão as empresas de aviação, produtores de automóveis, e todos os restantes sectores com forte correlação inversa com esta matéria prima. Ganharão os consumidores (por pagarem o combustível a um preço inferior) e os investidores Europeus, por se tornar mais provável uma estimulação mais agressiva ao mercado para evitar que este risco de deflação se materialize. 

E do longo prazo, o que se espera?
Ainda assim, esta guerrilha parece não fazer sentido no longo prazo, já que nenhuma das partes que está na sua origem e na sua possível resolução ganha com ela. Assim, parece-me pouco provável que o preço do petróleo continue a cair para além do final do primeiro semestre de 2015. Acredito que a OPEP terá mesmo de cortar a produção logo no início de 2015, e o excesso de matéria-prima no mercado não deverá demorar mais de 6 meses a ser absorvido. Se tivesse de adivinhar, diria que o petróleo estabilizará num novo intervalo, entre os 65-85 dólares, nível a que, com um controlo moderado da despesa, a maioria dos países produtores conseguiria subsistir. Este preço reflectiria a nova realidade relativa a um aumento na oferta, e o impacto de um inevitável abrandamento na economia global (provavelmente desencadeado por toda esta trapalhada).
Por que não vejo como provável uma baixa nos preços do petróleo para além de 2015?
Como acabei de indicar, não parece haver interesse por parte de nenhum dos exploradores em que esse cenário se confirme. A haver, seria dos produtores de shale oil, presumindo que o hedging esteja montado pelo menos até 2017. Se os preços se mantiverem a estes níveis (ou abaixo deles) durante muito tempo, a probabilidade de conflituosidade social nos países produtores cresce exponencialmente. Resultado? A partir do momento em que a produção seja colocada em causa por um conflito, os preços sobem. Se esse cenário não vier a confirmar-se, no longo prazo haverá produtores que terão de deixar de explorar, diminuindo a oferta da mercadoria. Resultado? Desequilibrio da balança comercial, o que provocaria um aumento do preço.

Mais uma vez, os especuladores levam com as culpas
Uma última palavra para os especuladores, esses vilões sem rosto que são culpados de tudo o que acontece no mundo económico. A OPEP veio hoje atribuir aos especuladores a culpa desta queda rápida da matéria, negando responsabilidades neste movimento. Em primeiro lugar, não me lembro de terem vindo agradecer a público quando os mesmos especuladores fizeram o preço atingir uma marca histórica próxima dos 150 dólares no anterior pico ascendente. Segundo, mas não menos importante, acredito que grande parte deste movimento esteja precisamente a ser originado pelos membros da OPEP, numa tentativa de hedging tardio face ao acentuar das quedas. Quanto a nós, insignificantes formigas neste mundo de gigantes, resta-nos tentar aproveitar a variabilidade em nosso proveito. Para já, o plano é deixar cair até que o subsolo se ressinta. Quando os sinais de inversão surgirem, haverá certamente tempo e oportunidade para interessantes oportunidades de posicionamento de longo prazo. É uma questão de irmos olhando com atenção para os desenvolvimentos, sem hesitações fundamentalistas quando surgir o momento da inversão.

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  • Anónimo 16 / 12 / 2014 Reply

    Exelente ilustração fundamental.

    Assim fica mais facil,para os amantes desta materia prima,saber em que estado esta o turbulento navio em que viajam os nossos parentes!

    No que diz respeito aos setores que serão favorecidos,referiste aviação,eu so acrescento ou questiono se não será num todo,o setor de transportes,camionagem e mais importante no meu plano de investimentos,o setor de transportes maritimos,concordas!?

    Acrescentando ainda que esse setor esta bastante correlacionado com essa materia prima e sobretudo porque apartir de agora,mesmo com esse fatores que mencionaste e com a estabilização do crude no intervalo de 75 US vai ser sempre uma mais valia para o mesmo nesses valores.

    Podemos então esperar,da tua parte por um sinal de mudança de direcção?

  • Luis Amorsim 16 / 12 / 2014 Reply

    Mas pensas que isto tem tido impacto nas quedas acentuadas do psi desta semana ou tratam-se de outros factores?

  • Anónimo 17 / 12 / 2014 Reply

    Por acaso hoje estive para comprar o etf OIH ou XOP para uma entrada longa, de médio-prazo. Vamos ver como desenvolve nos próximos dias.

  • Anónimo 18 / 12 / 2014 Reply

    Olá Tiago
    Mais um excelente artigo tal como nos tens habituado. Por mera curiosidade, onde foste buscar os valores de extracção do barril por país?
    Cumprimentos,
    Ricardo Bastos

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 18 / 12 / 2014 Reply

    Peço desculpa pela demora nas respostas.

    Anónimo de 16Dez,
    Totalmente de acordo, todos os sectores associados à transportação e cuja energia de locomoção seja o petróleo ou derivados serão beneficiados. Os transportes que se movem por via marítima são-me muito pouco familiares, não consigo opinar. Quando houver sinais concretos de inversão eu espero indicar, ando atento!

    Luis,
    Indirectamente há uma relação. Repara que a Galp tem uma correlação directa, e muitas outras (Mota, BPI, BCP, Teixeira Duarte…) têm dependencias indirectas de países como Angola fortemente relacionados com a matéria-prima e que muito sofrerão caso os preços se mantenham a este nível

    Anónimo de dia 17,
    Parece-me mais prudente fazer escolhas individuais, a empresas que tenham vindo a ser penalizadas simplesmente por pertencerem ao sector mas que tenham hedging ou custos de exploração baixos. Devem ser as que mais rapidamente recuperarão.

    Ricardo,
    Já não me recordo de onde fui retirar esse gráfico em particular, mas se não me falha a memória foi de um relatório da agência da energia Americana. Mas basta pesquisar no google por custos de exploração por país e facilmente se encontram os valores.

    Abraços,
    Tiago

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