O dia em que o mundo financeiro sofreu um rombo

Tiago Esteves
Que grande surpresa… confesso que quando acordei não estava à espera de receber a notícia da vitória do Brexit. Já nas anteriores análises à banca tinha antecipado a possibilidade de tal poder vir a ocorrer, e do impacto que isso poderia trazer para os mercados, mas ontem já nada fazia esperar uma derrota dos que defendiam a permanência.

Quais são as implicações deste referendo, que poderá ainda tardar cerca de 2 anos (se bem que eu continuo a acreditar na possibilidade de revogarem a decisão) até gerar a efectiva saída do Reino Unido da União Europeia? Antes de mais, o definhamento do próprio Reino Unido. Foi um movimento pouco sensato por parte dos cidadãos do país com mais regalias na União Europeia, e a factura vai pesar. Ainda mais se a Escócia voltar a acordar para o tema da independência, o que é provável. Penaliza também de forma significativa o centro Europeu, com a Alemanha à cabeça, devido à antecipada dificultação das trocas económicas. Em Portugal, sofreremos também de forma directa com o enfraquecimento da Libra, sobretudo a nível imobiliário e no sector do turismo. Haverá ainda um efeito pouco claro sobre os emigrantes portugueses que, dependendo dos acordos que forem negociados, poderão ser forçados a voltar. Nem que mais não seja por se esperar que este destino se torne menos atractivo de um ponto de vista profissional, pela expectável recessão (ou pelo menos abrandamento económico) e desvalorização de divisa.

Além dos efeitos directos, temos todos os gigantescos efeitos indirectos que poderão advir de uma eventual crise financeira. Os movimentos de hoje foram sintomáticos do impacto que poderá gerar-se nos próximos meses, se bem que certamente com maior moderação. Como tinha dito há uns dias, o BCE estava a guardar alguns cartuchos para esta ocasião, e como já toda a gente espera que os bancos centrais intervenham em momentos de dificuldade, poderemos continuar a assistir a algumas intervenções concertadas no sentido de refrear o negativismo financeiro.

Ainda assim, existem vencedores no meio disto tudo. Desde logo, como há meses tenho vindo a defender, o ouro fica ainda mais apetecível. Sempre que existe instabilidade cambial, a “moeda” de referência valoriza. E espera-se que este momento não seja excepção. Outros dos potenciais beneficiados no médio prazo são a China e a Rússia, que estavam cada vez sob maior pressão comercial/política pelos acordos que a UE tentava impor. Com a saída do Reino Unido, temo que se confirme que estamos no caminho para a definitiva desagregação do projecto Europeu. Torna-se assim mais fácil a aplicação do plano de “dividir para conquistar”. Política e economicamente falando, claro…

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  • pedro gomes 25 / 06 / 2016 Reply

    "Em Portugal, sofreremos também de forma directa com o enfraquecimento da Libra, sobretudo a nível imobiliário e no sector do turismo."

    Olá Tiago, excelente artigo, parabéns.
    Uma questão, em que sentidos sofreremos no que toca a nível imobiliário?!
    Agradeço uma resposta da tua parte.
    Cumprimentos

    Pepe7

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 25 / 06 / 2016 Reply

    Olá Pedro, tudo bem?
    Obrigado pelo teu comentário! O sector do imobiliário deve ser especialmente afectado na zona do Algarve, onde quase um terço de todas as casas vendidas são actualmente para britânicos. Eles perderão significativo poder de compra, o que deverá diminuir o volume de vendas e pressionar o mercado. Por outro lado, prevê-se que o BCE tenha de manter as taxas baixas por mais tempo, de forma a evitar a deflação. Se assim for, poderá haver um estímulo consumista no sector habitacional no resto do país. Mas este cenário deve ser balançado com uma nova recessão em Portugal (também) motivada pelo ambiente de hostilidade para os periféricos que regressará aos mercados financeiros.
    Abraço

  • Carlos varandas 25 / 06 / 2016 Reply

    Boas Tiago, como sempre um artigo excelente.

    Vimos a assistir a uma grande perda no psi20, sobretudo na banca, é expectavel que o afundanço de ontem continue a médio prazo (meses)?

    E já agora será de novo a banca a mais afetada?

    Cumprimentos e obrigado pelas tuas partilhas.

    Carlos varandas

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 25 / 06 / 2016 Reply

    Olá Carlos,
    O maior problema para a banca poderá advir de um eventual efeito de contágio e do agravamento da dívida portuguesa. Enquanto para a maioria das empresas a implicação (além da indirecta, fruto de uma eventual recessão) passe pela maior dificuldade de exposição ao mercado britânico, os bancos têm de lidar com activos e garantias bancárias. A enorme exposição dos bancos portugueses à dívida dos países periféricos (nomeadamente à nossa) faz com que o agravamento que se sentiu ontem nestes activos faça desvalorizar os bancos nacionais como um todo. É imprevisível saber por quanto tempo pode continuar este efeito de contágio, porque há uma grande interligação com as medidas que o banco central possa vir a tomar. Caso consiga acalmar a escalada da dívida Portuguesa e continue a negativar as taxas de juro, poderá conseguir-se limitar este efeito de contágio. Mas, para ser sincero, nesta fase é algo demasiado imprevisível para me arriscar a antecipar um cenário de médio prazo. São demasiadas variáveis na equação, por isso prefiro manter-me de fora a assistir.
    Abraço

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