O estado das coisas…

Tiago Esteves

Este post é uma reflexão sobre o dia de hoje e sobre as preocupações que me assolam o pensamento. Como a macro-economia não é o meu forte, aviso desde já que esta opinião é muito pessoal e pouco científica. Perdoem-me se por algum motivo faltar à verdade dos factos.
Hoje aconteceu algo histórico nos EUA. A FED baixou a taxa de referência para 0,25%, o que é um recorde. Tanto pelo baixo valor como pela rapidez da descida.
Para os que ainda percebem menos disto que eu, vou tentar explicar o significado de tal medida: No fundo, a ideia é emprestar dinheiro praticamente a custo zero para desenvolver a economia. Em teoria, isto aumenta o consumismo e consequentemente aumenta a facturação das empresas. Parece uma medida de excelência, mas infelizmente tem efeitos secundários. Se o dinheiro é emprestado quase de graça, os bancos praticamente não pagam juros sobre os depósitos. Se não há juros, para quê poupar e pensar no futuro? O típico americano normalmente segue uma destas três opções:
– Aplica o seu dinheiro nas T-bills, que estão actualmente com um retorno a tender para o negativo;
– Investe em aplicações de maior risco, como o mercado accionista;
– Esturra o dinheiro e estimula o consumo;

Estas duas últimas opções vão fazer com que a economia se desenvolva, através do investimento directo ou indirecto. À primeira opção, já voltaremos.

O Japão
Do passado temos o exemplo do Japão, que também optou por esse caminho e nem por isso teve grandes resultados. Passados mais de dez anos as taxas de juro ainda estão perto de zero e os efeitos positivos sobre o Nikkei são relativos.
Desse marcante exemplo, penso que a FED tirou uma importante lição. Enquanto o Japão demorou 4 anos a baixar as taxas até próximo do zero, a FED fê-lo em apenas um ano. Daí podemos tirar uma de duas conclusões:
– A economia Americana está muito pior do que a Japonesa estava e era impossível aguentar 4 anos até se chegar ao nível em que as taxas se encontram;
– Se no Japão os 4 anos diluíram o efeito da baixa, e se era para baixar, então optou-se pelo tratamento de choque.

Eu vou mais por esta segunda opção (embora acredite que a actual crise seja muito mais grave do que a Japonesa). Há cerca de duas semanas atrás, quando tinha posições curtas sobre o SP500, disse que me livraria delas antes do dia de hoje. Houve um motivo para o fazer. Pela primeira vez, os membros da FED reorganizaram-se de forma a prolongarem a reunião por dois dias, ao contrário do previsto. Foi claro para mim nessa altura que essa reorganização acontecera porque iria ser tomada uma medida importante e inovadora de estímulo económico. Fosse ela qual fosse.
Estando a taxa em 1%, tenho de concordar que a probabilidade de o mercado animar com um corte surpresa de 0,75% é muito superior à probabilidade de animar com um corte de 0,5%, deixando no ar a possibilidade de mais outro corte.

É bastante possível que assistamos agora finalmente ao tal rally, a um verdadeiro rally, que pode levar o SP500 até aos 1000 pontos. Poderemos começar a falar de bull market? Na minha modesta opinião, não! O mercado está animado, os números secularmente negativos foram esquecidos. Mas esquecer algo não faz com que isso desapareça. Nem os seus efeitos.

Regressemos às T-bills. Como eu disse lá acima, as T-bills estão com um retorno a tender para o negativo. Isto quer dizer que os investidores estão a pagar para terem o dinheiro guardado! Esta é a prova mais real da actual aversão ao risco do smart money. Era sabido, esperado, que a taxa de referência acabasse por ir para perto de zero. Se eles o sabiam e mesmo assim preferem pagar para ter o dinheiro seguro, porque havemos de nós, na nossa pequenez, contrariar a força do verdadeiro dinheiro?
De qualquer forma, este é um dado a ter em atenção. Quando o smart money se começar a mobilizar para os mercados, será provavelmente altura de entrar. Porque se o mercado for irracional o suficiente para avançar com um novo bull market, não vamos contrariar a tendência!

O futuro do dólar
Eis uma moeda que eu não queria ter em carteira neste momento. Depois de TODAS as medidas que já foram implementadas, não só os sucessivos cortes na taxa de referência, parece-me que o dólar se continua a aguentar estranhamente bem. Provavelmente isso será explicado pelo regresso de capital investido no estrangeiro. Tudo bem, aceito essa teoria. Mas, e quando esse retorno terminar? O que vai acontecer? Com as máquinas de imprimir dinheiro a funcionar a todo o gás, o dólar não pode aguentar por muito tempo. A sua desvalorização é inevitável.
Sendo as commodities o natural refúgio contra a inflação, eu apostaria no Ouro como o que mais irá beneficiar com este dólar minado.
Quanto à Europa, vamos ver o que acontece. Esta doença contagiosa está espalhada por todo o lado, não se conhecem ainda em profundidade todos os efeitos que dela poderão advir. O melhor é ficarmos atentos e, sobretudo, sempre de pé atrás…

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