O impacto da instabilidade política na Crimeia nos mercados financeiros

Tiago Esteves
No inícia da manhã de hoje, depois de ter indicado que tinha procedido à desalavancagem em termos de mercados financeiros e à abertura de posições nas commodities para fazer protecção de risco (hedging), recebi algumas questões por mensagem privada no sentido de clarificar as duas vertentes da minha decisão. Por um lado por que motivo tinha decidido manter a exposição aos mercados financeiros em vez de encerrar as posições ate à clarificação da situação geopolítica, e por outro lado o porquê das commodities. Serve este post para explicar, por partes, essas duas questões.

Começando pela primeira questão, actualmente estamos em bull market. Penso que não existem dúvidas quanto a esse ponto. Conforme referi na última análise ao PSI20, é de esperar para breve uma correcção nos índices, já que estes andam em máximos há já algum tempo. A tensão Rússia-Ucrânia poderá ter servido de mote para essa correcção, não me parecendo suficiente para provocar a inversão permanente nos mercados financeiros. Porque a Ucrânia, apesar dos seus 45 milhões de habitantes, representa apenas uma pequena fracção do PIB mundial (0,4%). Porque Putin, após a demonstração de virilidade, irá com elevado grau de probabilidade recuar na decisão de ofensiva militar. E, não menos importante, porque a guerra geralmente impulsiona os mercados financeiros, pela injecção paralela de dinheiro na economia. Excepção feita aos países atacados, e muito mal estaríamos se de facto as coisas azedassem ao ponto de a Europa se envolver num conflito aceso com a Rússia ou os seus aliados. Estou fortemente convencido de que esta situação se resolverá pela via diplomática, ou pelo menos se atenuará por esta via. Mas mesmo que se evite o derramamento de sangue, dificilmente serão restabelecidas as relações entre Rússia e Ucrânia, pelo menos a breve trecho. E isso leva-nos às commodities.

A Rússia é o principal fornecedor mundial de energia (Petróleo e gás natural), enquanto a Ucrânia é o 2º maior produtor mundial de cereais (especialmente milho e trigo). A escalada da tensão entre os dois países já começou a provocar um aumento nos preços destas matérias-primas, por se recear com alguma lógica uma diminuição da oferta a nível mundial. Com o controlo da Crimeia por parte da Rússia, a exportação (que se dá sobretudo pela via marítima) dos cereais ficará condicionada, provocando este factor um aumento com elevado grau de probabilidade nos preços. Mesmo que a situação com os cereais se resolva e que só assistamos a uma inflação temporária dos preços, o problema do gás natural é bastante mais sério. Porquê? Porque a maioria do gás natural que entra na Europa é originário da Rússia. Olhem para o mapa que está na imagem abaixo e tentem adivinhar o problema!

Exacto, a Rússia está ultra-dependente da Ucrânia no que diz respeito ao gás natural, e foi esse factor que na minha opinião provocou esta reacção irracional por parte de Putin. Mesmo que as coisas venham a serenar, dificilmente a Ucrânia continuará a servir de passagem ao gás da Rússia sem um agravamento nas rendas, o que faria o preço aumentar. Caso a guerra seja inevitável, (o que eu de facto duvido, por tudo o que a Rússia tem a perder), a questão torna-se ainda mais crítica!

Esperando eu que tudo isto não passe de uma birra de Putin e que acima de tudo se consiga evitar a guerra, pelo sim pelo não vou-me refugiar nas commodities. Milho e petróleo no curto prazo, gás natural no curto e médio prazo (o gás natural até está interessante tecnicamente…).
Não aprecio especialmente negociar commodities, sobretudo por questões éticas. Mas considerando que esta ameaça geopolítica irá provavelmente causar um aumento no preço dos combustíveis e na alimentação, é a minha forma de me cobrir deste risco financeiro a que o desvario do Sr. Putin me está a expor.


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  • Anónimo 04 / 03 / 2014 Reply

    Caro Tiago, qual o melhor instrumento para si para entrar longo no gás natural (e eventualmente outras commodities)? CFDs, factor certificates? Penso que o contango/backwardation são fenómenos a evitar para os menos experientes e nem todos os instrumentos o permitem… Obrigado e cumprimentos

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 04 / 03 / 2014 Reply

    Eu uso cfd's. Para exposição limitada no tempo são o melhor instrumento. Os futuros são demasiado limitativos para diversificação do portfólio, a menos que tenha um portfólio muito vasto. Os etfs são ainda menos eficientes no curto prazo.

  • Hugo O'Neill 04 / 03 / 2014 Reply

    Enquando não houver uma desisão definitiva sobre o conflito é de esperar grande volatilidade.
    Ouro e Light Crude em retração hoje.

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 04 / 03 / 2014 Reply

    Concordo, Hugo. De facto é provável que a volatilidade venha a acentuar-se nas próximas semanas

  • Anónimo 03 / 05 / 2014 Reply

    Tiago, 2 meses depois e com um cenário ainda mais negro, gostava de saber o que podemos esperar das bolsas europeias e em especial do psi20? Será que devíamos temer, e fechar algumas posições longas?
    Obrigado
    Bruno Patinha da Costa

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