O lucro acima do orgulho

Tiago Esteves
Uma das principais
condicionantes associada a quem negoceia nos mercados financeiros passa pelo forte desejo de
nunca errar. É esta aversão pelo erro que tantas vezes leva pessoas
inteligentes e com enorme sucesso em outras áreas da vida a fracassarem nos
mercados. A vida fez, ao longo do tempo, uma triagem destes vencedores, treinando-os para não
aceitarem um “não”. Eu próprio tenho como mote para o meu dia-a-dia o lema
“Failure is not an option”, e orgulho-me de o perseguir de forma
incessante sempre que uma dificuldade se atravessa no meu caminho. Este
pensamento, que me tem favorecido em outras áreas,
prejudicou-me durante anos no contexto dos mercados financeiros. Talvez
porque não o compreendia em toda a sua magnitude, talvez porque não o
conseguia analisar de uma forma global.

Nos
mercados, ao tentarmos
errar o mínimo de vezes possível, para mantermos um nível “óptimo” em
termos de negociação, o que fazemos? Erramos… Se eu desejo
intensamente ter
um trade positivo, para alimentar o meu ego com uma decisão correcta, a
primeira tendência irá no sentido de fechar o negócio logo que o
movimento se
direccione a meu favor. Isto faz com que eu não aproveite todo o
potencial de
valorização inerente, cortando os lucros demasiado cedo. O orgulho
intromete-se, e pressiona-nos a assumir uma vitória antes que ela se
desvaneça.

Em sentido inverso, quando
o trade corre contra nós, o que fazemos? Deixamos muitas vezes “andar para ver o que acontece”, na
expectativa de uma inversão do movimento que nos foi contrário, e aguardando que
o mercado nos devolva a razão. Ora, este será provavelmente um dos maiores problemas associados aos que se iniciam nos mercados.

É fácil perceber onde está
o problema.
Difícil é modificar este comportamento, alterar toda uma mentalidade adaptativa, no sentido
de a moldar à realidade dos mercados. Ao contrário do que acontece em outras áreas da vida e da sociedade,
nos mercados é expectável que se erre e é fundamental assumir esse erro (na forma de um
negócio não positivo) como parte integrante do processo. Nem os melhores do
mundo têm 100% de acertos, nem algo que se pareça. Uma percentagem
de acertos de 70% já está ao nível dos melhores traders, o que deixa ainda assim uma
margem para que 3 em cada 10 negócios se traduzam em perdas. É normal. É
aceitável. Faz mesmo parte do processo…

O que fazer, então, para
assegurar um longo prazo vencedor? É aqui que entra o money management. Basta
garantirmos que cada negócio realizado tenha um potencial de ganho superior
ao potencial de perda. De preferência, que esse diferencial seja no mínimo duplamente
superior. Geralmente, por cada euro que se arrisca, devem esperar-se dois euros de ganho.
Uma
relação R/R (risk/reward) de 1:2. O que significa isto em termos
práticos? Se
eu porventura estou a negociar com base em análise técnica, devo ter um
target
situado ao dobro da distância do meu ponto de stop. Se o meu stop está
5%
abaixo, o meu target tem de estar no mínimo 10% acima. O negócio parece
extremamente
aliciante mas o stop já está demasiado longe? Então não vale a pena
proceder a uma entrada, haverá certamente mais
oportunidades em breve! É fundamental que tenhamos a estatística do
nosso lado, porventura mais importante do que sermos bons analistas.

Se o plano está traçado, o stop está definido, e o objectivo de lucros tem um potencial de proveito positivo, então é altura de deixar correr. Se correr contra nós o stop actua, se correr a favor actua o take profit (ou não, dependendo das características da estratégia). 

E
se o meu stop estiver demasiado longe do ponto de entrada, mesmo
havendo um R/R muito proveitoso, será isso motivo suficiente para me
levar a não prosseguir com o negócio? Não, basta simplesmente adaptar o
nível de exposição à distância ao stop. Se eu geralmente negoceio com um
stop de 5% e uma exposição de 5000 euros por negócio, apenas tenho de
reduzir a minha exposição para 2500€ se o meu stop estiver a 10% de
distância. E isso, contrariamente ao que possa parecer, não diminui o
potencial de rendibilidade. Pelo contrário! Os stops largos estão menos
expostos à volatilidade, principal inimiga de quem negoceia com stops
automáticos. Quantos de nós não vimos já uma posição ser stopada com um
pico intraday para logo de seguida a vermos cumprir milimetricamente a
nossa análise?

Não querendo entrar demasiado no fantástico
mundo do money management, já que não era esse o meu objectivo quando comecei a
escrever este post, é importante que se compreenda que fazer grandes
análises não é suficiente para se ter
sucesso nos mercados. É necessário ir mais além, ter uma boa estratégia
de gestão do risco e do capital, e ter a coragem suficiente para assumir
cada perda como uma fase normal do processo de negociação nos mercados financeiros.
As perdas devem ser encaradas como algo natural, algo que não pode ser
visto de forma alguma como um beliscão no ego. Só depois de tomarmos
aprofundadamente
consciência desse factor estaremos preparados para começar a ganhar
dinheiro, preparados para deixar uma posição correr sem ter
pressa de lhe cortar as pernas por receio de estarmos a alimentar um
castelo de nuvens. 

Lista de Comentários

  • Daniel Pires 21 / 04 / 2014 Reply

    Grande Comentario Tiago:

    Na minha perpectiva pessoal o trading é nem mais nem menos que a gestão de risco e "money management" que permite um ganho estatistico no longo prazo atraves de varias ferramentas totalmente conjugadas entre si:
    Analise tecnica, projecções/ resistencias e suportes, risco/ganho, alavancagem/margem, piramidação, e o grande segredo: calculo do stop loss em função de uma percentagem do nosso capital (juros compostos.)

    Uma das coisas mais importantes que devemos aprender na bolsa é que esta é "anti-natural" pois somos ensinados desde pequenos a ganhar e o ser humano nao esta "geneticamente" preparado para assumir derrotas mesmo que pequenas.

    No inicio quando estava a aprender os pilares do trading tambem cometia os mesmos erros capitais de toda a gente:

    Retirava o stop num trade que rumava contra mim e dizia: è uma "blue ship" ela tera que subir e ela espancava durante meses.

    Nao colocava Stop e dizia: esta tao barato ja desceu 80% (mal sabia que poderia cair mais 99.999%)

    Mais vale dinheiro no bolso e cortava os lucros: Mal sabia que a acção subui mais de 500%

    Metia todo o meu capital num só ovo

    Dizia quando algo corria bem ou mal"O mercado esta contra mim" ou dizia "bati o mercado"… ou seja nao mantinha o mesmo estado psicologico o que interferia nos meus trades…

    Como digo o trading é como os nossos pais nos diziam quando eramos pequenos: "olha que assim vais cair"… e mesmo assim só aprendia depois de "cair"…

  • silvatradingpt 21 / 04 / 2014 Reply

    Muito bom post!
    É sem dúvida um dos segredos do sucesso.
    Bons trades,
    Paulo Silva

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 21 / 04 / 2014 Reply

    Não é fácil aprender isso Daniel. Nós fazemos parte dos resistentes, daqueles que tiveram de sofrer na pele a dura realidade do mercado para conseguirem ver o melhor caminho a seguir de forma mais clara 🙂

    Um abraço

  • Excelente post a lembrar o mote: “lose your opinion, don’t lose your money”.
    Apenas duas sugestões que julgo poderão constituir interessantes e importantes posts, sobretudo para iniciados nestas andanças:
    1. Aprofundamento da sua estratégia/teoria sobre os stops (se já o fez pedia-lhe o favor de me indicar mais ou menos a data para tentar encontrar no blog).
    2. Desmontar o sentimento da ansiedade, sobretudo em quem começa, não conseguindo ficar de fora quando o mercado a isso aconselha, mas a ânsia de querer «estar dentro» é tal, que se inventam sinais de entrada, não se respeitam indicadores básicos e cometem-se erros que só um mercado bullish perdoa.

  • Luís 21 / 04 / 2014 Reply

    Já guardei para leituras futuras. 🙂

  • Anónimo 22 / 04 / 2014 Reply

    Em suma, o fator SORTE pesa 90%. 🙂
    Abel Silva

  • Hugo O'Neill 22 / 04 / 2014 Reply

    Ótimo artigo, sem dúvida que money management é importante, mas se não tivermos as emoções sob controlo não existe nada no mundo que nos possa ajudar. A sorte não existe, a sorte é quando a preparação se encontra com a oportunidade!!
    Em suma, as emoções pesam 90% da negociação.

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