O que acontece às minhas obrigações se Portugal sair do Euro?

Tiago Esteves
Já são conhecidos os resultados das duas últimas emissões obrigacionistas das empresas do PSI. Tanto a PT como a Sonae tiveram uma procura superior à oferta nas suas obrigações, sendo que no caso da Sonae a procura excedeu a oferta em duas vezes, mesmo com o aumento do valor-alvo no decorrer do processo. Sendo algo previsível, dada a atractividade da taxa de juro oferecida, não deixa de ser uma marca importante.

Aproveito este post para salientar um dado que não tem sido suficientemente comentado quando se fala em obrigações, inclusive por mim, nos “tutoriais” sobre obrigações. Há um factor de risco que tem de ser levado em conta numa altura em que a Grécia parece estar muito próxima da saída do Euro. Se Portugal sair do Euro (e existe um risco considerável de isso vir a acontecer), as obrigações passarão muito provavelmente a cotar na nova moeda. Esta nova moeda (ou antiga, se voltarmos ao Escudo) sofrerá seguramente uma forte desvalorização que se reflectirá no valor das obrigações. Quem as levar até à maturidade será muito provavelmente reembolsado em escudos, com a forte desvalorização entretanto sofrida. Quem decidir vender ao mercado para salvaguardar alguma da hipotética desvalorização verá certamente reflectido no valor da cotação a desvalorização expectável, com uma penalização associada.

Caminhando pelo vale da conspiração, atrever-me-ia a pensar que uma das motivações para o lançamento massivo de dívida pelas empresas aos pequenos investidores terá sido a possibilidade de tal cenário se concretizar, situação que reduziria substancialmente a dívida real das empresas em causa (obviamente que não foi o principal factor, mas terá sido visto como um bónus).

Mas por enquanto isto ainda são tudo cenários, que deverão ainda assim ser tidos em conta. O que se deve fazer caso este cenário mais negro venha a concretizar-se, para evitar males maiores? A seu tempo falaremos nisso, caso Portugal esteja um dia tão próximo de abandonar a divisa como a Grécia está actualmente.

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  • Dvd. 25 / 07 / 2012 Reply

    Esperemos que tal não suceda, eu espero pelo menos, considero que a saída do Euro seria penalizadora para o povo. (Se seria boa para a economia nacional, já é outra conversa. Mesmo assim considero que seria mais mau que bom).
    Se a Grécia e/ou Portugal saíssem do Euro, quais seriam as consequências? Acho que é certo que o Euro ia cair fortemente face ao Dolar. E será que isto ia beneficiar as exportações dos países que nele permanecessem? Creio que sim, mas acho que a perda de credibilidade da Zona Euro e da UE seria demasiado grande para não serem feitos todos os esforços para manter Portugal e a Grécia com o Euro.

    Mas dito isto, nesse cenário, as nossas contas bancárias seriam convertidas para a nova moeda e iamos perder poder de compra no exterior mas e internamente? O que seria expectável? E o que seria melhor fazer para quem tenha algumas poupanças no banco? Muda-las para o estrangeiro? Seria de esperar uma grande afluência aos bancos?
    Para além de bons lucros para quem tivesse posições curtas no EUR/USD, não vejo nada de bom para o povo nesse cenário…

  • Tiago Esteves 25 / 07 / 2012 Reply

    Olá Dvd,
    Para nós, enquanto povo, seria terrível. Os salários e pensões sofreriam um ajuste que os colocaria provavelmente 50% abaixo do nível actual. Para Portugal só teria benefícios se a dívida fosse perdoada totalmente ou quase. Mesmo o aumento das exportações seria insuficiente para compensar o Povo no que diz respeito à diminuição do poder de compra. Deixaríamos de poder importar bens de consumo com a facilidade que hoje o fazemos (O que seria também penalizador para as grandes economias, como a Francesa e a Alemã, que têm em Portugal mais um mercado).

    Internamente as coisas não sofreriam grandes alterações, já que tudo o que é produzido cá seria ajustado da mesma forma.
    No que diz respeito ao Euro, teoricamente este valorizaria. Portugal, Grécia e afins são as economias mais fracas da zona Euro. Uma saída destas representaria um alívio para a Moeda que, ficando apenas com as economias mais poderosas, valorizaria.

    O que fazer? Se a saída estiver iminente, levantar o dinheiro do banco. Euros na mão não passam a escudos. Para quem tem essa possibilidade e mais poder financeiro, abrir uma conta na Alemanha. É actualmente a economia mais forte da zona Euro e na pior das hipóteses seria a Alemanha a cansar-se desta situação voltando ao Marco. Se tal acontecesse, dada a força do país e a aversão à inflação que eles têm, seria altamente provável que o Marco sofresse uma elevada valorização face ao Euro.

    Pensando racionalmente, penso que Portugal terá muitas dificuldades em manter-se no Euro. Enquanto Português espero que este cenário não tenha de concretizar-se…

  • Dvd. 25 / 07 / 2012 Reply

    Tiago, não posso deixar de dizer que fico satisfeito por partilhar a maior parte da minha opinião. Há já algum tempo que "luto" por entender cada vez melhor estas coisas.

    Dito isto, passo ao ponto de discórdia! No exercício mental que fiz, imaginava ma forte desvalorização imediata devido principalmente à imagem de que o Euro tinha falhado e depois, sim, uma valorização a longo prazo devido ao alívio para a Moeda, como disse o Tiago.

    Mas espero que isto nunca passe da teoria e apesar de concordar que vai ser muito difícil ficar no Euro, acredito que vai acontecer.

  • Tiago Esteves 25 / 07 / 2012 Reply

    Dvd, nada mais saudável do que uma troca de argumentos com pontos divergentes:)

    Neste momento só podemos levantar cenários e possibilidades, e todos sabemos como a teoria é falível. Ultimamente o Euro tem desvalorizado com toda esta situação sobretudo devido à perspectiva de mais um resgate, com todos os custos que isso tem para os países credores, (e principalmente) a somar aos custos económicos de uma desaceleração provocada pelas medidas de austeridade que serão previsivelmente impostas à 4ª maior economia da zona euro (isto enquanto a Itália vai passando despercebida).

    A Grécia e Portugal representam apenas cerca de 4% da economia da zona Euro, o que acaba por ser teoricamente irrelevante. Mas verdade seja dita que os mercados podiam de facto penalizar o Euro por esse falhanço, principalmente pela falta de coesão demonstrada e pelo que poderia ser considerado como o iniciar de um desmoronamento.

    Porque é que eu não apostaria numa desvalorização do euro particularmente face ao dólar? Porque estou também bastante negativista face ao dólar. O actual bull market tem sido assente em medidas inflaccionistas e, a verificar-se a aplicação do QE3, maior será essa tendência para desvalorizar a moeda com o intuito de melhorar a economia. Neste momento, na minha opinião, o Euro não está tão mau como parece e o dólar não está tão bem como parece…

    Sinceramente, espero que não tenhamos de ver na prática qual dos cenários estava mais próximo da verdade 🙂

  • Dvd. 25 / 07 / 2012 Reply

    Obviamente Tiago!

    Lá está, apesar de nos números Portugal a Grécia serem irrelevantes, eu acho que a imagem de falta de coesão ia afectar o Euro.

    Agora em relação a isto "Neste momento, na minha opinião, o Euro não está tão mau como parece e o dólar não está tão bem como parece…" é uma opinião com a qual não podia concordar mais. Há já algum tempo que também o digo devido as medidas inflacionistas e também devido a me parecer que a dita retoma económica nos USA é uma mascara criada em parte por investimentos internos do governo que não vão continuar a dar efeitos durante muito tempo. – Talvez esta opinião já seja mais especulativa, mas do que vou lendo é o que me parece.

  • Anónimo 12 / 09 / 2012 Reply

    Que é que acontece a quem tem dividas de creditos (habitacao, etc) tambem passarao para a nova moeda ? Que acontecera ? Tera o credito de ser negociado ?

  • Prata do Povo 26 / 07 / 2013 Reply

    OLá, dar alivio quantitativo num sistema monetário (QE) funcionaria melhor caso não houvesse total liberdade de movimento de capitais. O que o Seistema de Reserva Federal faz é financiar as economias dos países en desenvolvimento onde as taxas de juro são mais baixas e por isso apeasr de ajudar a economia americana muito do dinheiro não é aplicado nos EUA mas algures no mundo.

    Alguém disse que o escudo se devalorizaria face ao EURO/DOLLAR 50%, não sei como. Não sei onde foi buscar esse valor. Um valor simplesmente impossível de ser obtido a não ser com um aumento da massa monetária do escudo para quase o dobro que em Portugal causaria hiperinflação (que não tem nada a ver com inflação). O Escudo tal como está hoje não desvalorizava nem os 25% que é necessário obter para que a economia nacional cresca e incentive s empresas poruguesas a produzir mais pois podem competir com muito do que é importado. Com 18% de desemprego, que comecaria a baixar brutalmente 6 meses depois da saida, não existem forças potenciadoras de inflação, os cabazes de compras serão simpesmente readquados, e haverá adiamento para a compra de maquinaria importada, o que é muito bom. Os impostos sobre o petroleo terão de baixar na mesma base da desvalorização, o estado arre«cadaria o mesmo porque teria os espanhóis em massa a vir comprar combustíveis a Portugal, a energia teria de ser tablada antes da saída e não ser actualizada durante 12 meses. Ao final de 12 meses surgiriam persões sobre a moeda para se revalorizar. O estado ai será obrigado a aumentar a massa monetária para manter os 25% face ao EURO/DOLAR dai depende o sucesso e vingação dos novos investimentos tanto para a fornecer a economia interna como externa. Isso significa que o estado tem de garantir durante 2 anos a develorização nesse valor, e ao final desse período ir subindo a cotação em períodos de sobe e desche na ordem dos 10% como faz a coroa checa. Fins de semana e finais de mês têm grande afluência de turistas valoriza-se a moeda, nos principios da semana e inícios do mês sobem-na (para o interesse da industria).

    Quanto às obrigações sim ficarão na moeda de curso legal que em determinado momento for estipulada. As empresas apenas diminuirão a sua dívida em termos internacionais, em termos nacionais não. Mas existe alguma razão no que diz. Os politicos tenderão a abusar da moeda e tenderão a desvaloriza-la, constantemente, isso só aconteceria fora da UE, sair do euro e da UE ai sim há razão para ter medo porque será muito difícil ao BdP manter a independeñcia que lhe assiste. Embora diga-se 10 anos de sistema euro e o BdP foi incompetente ao máximo (venda de 50% do ouro, BPN, BPP, BANIF, e ainda muitos outros casos mais ligeiros em quase todos os bancos),

  • Tiago Esteves 27 / 07 / 2013 Reply

    Olá Prata do Povo,
    Discordo de parte da sua opinião mas não posso deixar de admirar a coerência do seu comentário.
    Se Portugal sair do Euro não é necessário dar-se um cenário de hiperinflação no tradicional sentido do termo para a nossa moeda desvalorizar fortemente. Tal só teria de acontecer se as moedas continuassem a ter como referência as reservas de Ouro. E, como sabe, isso acabou há algum tempo. Neste momento as moedas valem o que os mercados acham que elas valem. E estima-se que eles achem que Portugal é um peso para o Euro e que por isso a moeda de referência desvalorizaria cerca de 40% face a essa moeda que seria de referência para nós. Acredito piamente nesse cenário mas sinceramente não quero chegar a ver qual de nós teria razão.
    No que diz respeito às exportações, de facto elas aumentariam. Não podemos dizer o mesmo das importações, que teriam de cair a pique por uma diminuição do poder de compra. Isso incluiria os produtos petrolíferos. Poderíamos ter uma diminuição de impostos mas apenas para quem vê de fora, pela desvalorização da moeda. Mesmo que os espanhóis viessem em peso abastecer a Portugal isso só ajudaria o país através do aumento de receitas com ISPP.
    Por fim, concordo que o nosso sistema político não tem mostrado a devida competência para gerir esta nova moeda. Ainda assim, acho que estamos melhor do que antes.
    Cumprimentos

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