O ressalto por que todos esperam

Tiago Esteves

Sempre que as quedas se acentuam um pouco mais, começamos a ouvir falar na proximidade de um ressalto. Perdoem-me se estiver enganado mas não há nenhuma regra que obrigue o caprichoso mercado a ressaltar “só” porque já caiu 20%. Vamos olhar novamente para o SP500, fazendo-o uma vez mais de representante oficial da crise.
Embora a anterior análise ao SP500 (foi mais uma análise à crise) já tenha sido feita há 4 meses continua válida em muitos aspectos, especialmente a nível técnico (já que é uma análise de muito longo prazo).
Por isso mesmo, ao contrário do usual, hoje não vamos olhar para padrões gráficos. Vamos olhar para indicadores, técnicos e psicológicos. Escolhi o RSI, o VIX e o racio bulls/bears.

Comecemos pelo RSI. O RSI será o indicador mais técnico, para nos ajudar a compreender o nível de sobrevenda que os mercados já levam. É inevitável comparar as recentes quedas com as que ocorreram em Setembro-Novembro do ano passado. Façamos então a comparação relativamente ao RSI. Se é verdade que o fundo se deu com um RSI de 32, não é menos verdade que o RSI sinalizou a inversão com alguma antecedência, através de uma divergência. E se olharmos para o vale da divergência, constatamos que este indicador atingiu os 23! E mesmo depois de ter atingido esse valor, demorou mais de um mês a inverter temporariamente.
Actuamente o RSI encontra-se nos 28 e nada do que consigo observar me aponta para um ressalto. Pelo contrário, o indicador está a acompanhar o índice de forma simétrica, não parecendo disposto para já a iniciar uma divergência ou a sinalizar um fundo.

O VIX (Volatility Index) é, para os que não sabem, o indicador que mede o medo nos mercados. Quanto mais alto é o seu valor, maior é o receio existente no seio dos investidores. Geralmente associam-se os seus níveis mais elevados (correspondentes a pânico) a situações de inversão. É fácil de perceber, quando o pânico já está mais que instalado os ressaltos tendem a ocorrer, aliviando esse sentimento extremista.
Ora, também aqui não consigo ver nada de positivo, nada que me indique que um ressalto possa estar para acontecer. No anterior fundo, o VIX atingiu um recorde, ultrapassando a fasquia dos 80 pontos. Verdadeiro pânico!
Actualmente estamos abaixo dos 50, com o (seu) RSI a níveis confortáveis o suficiente para permitirem mais subidas. Não considero que os actuais valores possam ser considerados de pânico… especialmente, tendo em conta o que assistimos ainda há tão pouco tempo atrás!

O rácio Bulls/bears é também um indicador de sentimento, embora diferente do VIX no seu funcionamento. Este mede a percentagem de investidores com sentimento bull vs. investidores com sentimento bear. Tal como com o pânico, também neste caso os ressaltos tendem a ocorrer quando os investidores estão demasiado negativistas (isto é, quando existe uma grande percentagem de bears). Os dados da semana passada apontam para uma percentagem de 29,7% de Bulls e 44% de bears, com um racio de 0,68. De ressalvar que os dados saem à terça, admito que o número de bears possa ter aumentado ligeiramente até sexta.
No anterior fundo, a percentagem de bears atingiu os 55%! Estamos ainda longe dessa marca, também aqui temos ainda bastante margem de manobra.

Como vimos acima, os três indicadores mostram que podemos assistir por mais algum tempo a novas quedas, já que todos têm espaço para se alongarem mais um pouco.
E o que é que não temos? Se bem se recordam, o anterior rally foi um rally de esperança. Esperança que a mudança de presidente trouxesse uma radical alteração aos mercados. O charme de Obama começou a esbater-se e os investidores já se aperceberam que a recuperação não está para breve. Provavelmente surgirá alguma notícia que traga algum fulgor aos mercados, mas não se poderá comparar à esperança que uma nova tomada de posse provoca…

Concluindo, não coloco de parte que um novo rally venha a ocorrer muito em breve. Ele surgirá, obviamente. Mas porquê tomarmos-lhe a dianteira, tentando adivinhar o seu aparecimento? Já nem falo no perigo de negociar tendências secundárias, pois corro o risco de me tornar repetitivo. Mas tentar encontrar fundos? Qual é a necessidade, se nada do que vemos nos indica que já o atingimos? Não será mais lucrativo jogar pelo seguro? Eu continuo a pensar que sim, embora a minha opinião seja por vezes demasiado conservadora…

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