Obrigações do Sporting – Oportunidade ou loucura?

Tiago Esteves

Tiago Esteves

, Obrigações

Se não esteve a viver numa caverna na última semana, terá provavelmente ouvido falar sobre a crise interna no Sporting . Uma das consequências mais sérias que está a resultar dessa crise passa pela declarada incapacidade do clube em honrar os seus compromissos obrigacionistas. Em termos práticos, a Sporting SAD tem de pagar um empréstimo de 30 milhões de euros até ao dia 25 de Maio, e tudo aponta para que tal não venha a acontecer. O clube pede agora (e formalizará esse pedido em assembleia de obrigacionistas) um adiamento desse reembolso para o dia 26 de Novembro. Analisemos, portanto, o motivo apontado para o adiamento e se existe neste momento uma oportunidade de investimento nestas obrigações.

O motivo apontado para o adiamento

Como bom clube português, o Sporting estava à espera de colocar mais 30 milhões de euros no mercado obrigacionista, de forma a utilizar esse dinheiro para reembolsar o empréstimo anterior. É um rollout de dívida em forma de esquema ponzi praticado igualmente por Benfica e Porto. Ora, por azar, essa emissão coincidiu com esta crise da equipa principal de futebol/instabilidade na direcção, o que em termos práticos significa que o Sporting apenas conseguiria financiar-se em mercado obrigacionista a taxas ainda superiores aos 6,25%/ano que já estava actualmente a pagar por esta emissão (o preço teórico antes desta decisão apontava sensivelmente para um cupão de 7%/ano). Ao passar para Novembro este reembolso, a direcção tentou ganhar tempo para que a situação amainasse o suficiente para trazer o juro novamente a uma situação de normalidade.

 

Importa contudo perceber que esta decisão foi potencialmente prejudicial para o futuro financeiro da SAD. Se antes da emissão tínhamos um preço teórico para a nova emissão de 7% ao ano, com esta mini-crise temos agora o nível de risco percepcionado pelo mercado em 10,5%/ano. À anterior situação de instabilidade, acresce agora o risco (embora relativamente baixo, no meu entender) de incumprimento por falência. A manter-se esta taxa teórica, se na presente emissão o Sporting teria de pagar 5,49 milhões de euros de juros nos 3 anos em que o empréstimo teria durado, para a emissão seguinte o clube terá de pagar a este juro 9.45M€. De um ponto de vista de gestão financeira, o mais acertado teria sido reembolsar agora os 30M€ e fazer então a nova emissão só em Novembro (mesmo que tal implicasse fazer um empréstimo de curto prazo na banca com uma taxa ligeiramente superior a esta). Por curiosidade futebolística, a assembleia de obrigacionistas tem neste momento um enorme poder prático, já que poderia em ultima instância desencadear a falência da SAD (caso a mesma não conseguisse obter os 30M€).

Pode esta situação constituir uma oportunidade de investimento?

Há alguns anos, já nos tempos do Godinho Lopes, tive o privilégio de aproveitar uma excelente oportunidade através da negociação de obrigações do Sporting. Após o conhecimento público de um relatório avassalador para a situação do clube, as obrigações desvalorizaram significativamente num curto espaço de tempo, e isso levou a que eu conseguisse obtê-las com uma YTM de 12%/ano. A actual tempestade gerou, nos 2 dias após o anúncio de potencial incumprimento, uma desvalorização teórica que chegou a atingir os 70% de valor nominal no livro de ordens (o que resultaria numa YTM de cerca de 36%). Felizmente para o clube, o mercado obrigacionista progride através de limites máximos diários, e a desvalorização era tão grande que não chegou a haver negócios a esses preços até que a racionalidade regressasse (a negociação abriu no passado dia 12 com uma YTM ponderada a Novembro de 14,5%, corrigindo na sexta para 10,5%). Caso estivéssemos neste momento a considerar uma yield de 36%, não teria dúvidas em considerar que estaríamos perante uma oportunidade. À actual yield de 10,5%, pode ser mais arriscado. Há que ter noção que estamos a navegar em águas de esquema piramidal, e que a solução encontrada desta vez possa ser um dia substituída pela negociação de um haircut com os principais obrigacionistas (que têm interesses cruzados na SAD). Considerando por negociações passadas que este haircut seria muito provavelmente no mínimo de 10%, parece-me ser este o limite para um investimento com um mínimo de garantias. Para um perfil mais arrojado, admito ainda assim a possibilidade de um investimento especulativo com 5 ou 10% da carteira aos níveis actuais de preço. A quem já está dentro, apesar de o raciocínio ser o mesmo, não me parece que a probabilidade de incumprimento seja tal que deva levar a uma venda forçada. Ainda assim, os 4% de perda a assumir são um valor baixo o suficiente para que se tome a decisão de redução de posição caso a exposição seja demasiado elevada.

 

Ah, e nem sequer pensem que a possibilidade de falência é (neste ou no caso de qualquer outro clube) irrisória por se tratar de um clube de futebol e pela doença associada que os Portugueses têm. Se houve algo que o passado nos ensinou, é que nada é demasiado grande para cair. Os activos imateriais só valem até ao momento em que o dinheiro falta. A marca “BES” tinha um valor estimado de 500M€, e de um dia para o outro meteu-se o valor imaterial no lixo e começamos a ouvir falar em “Novo Banco”.

 

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