Política e Mercados Financeiros: O que esperar dos próximos meses?

Tiago Esteves
Quem me conhece e habitualmente lê o que escrevo neste espaço, sabe que geralmente evito escrever sobre dois temas: política e futebol. Porque tanto a irracionalidade clubística como a partidária se sobrepõem muitas vezes à lógica e ao senso comum, levando a discussões mais emotivas do que racionais. Ao contrário do que acontece relativamente ao futebol, na política não torço por ninguém. Tenho uma ideologia bem definida, mas rejeito associar-me a uma cor política quando o que está em jogo é o futuro do meu país e dos que me rodeiam. Contudo, não podia desta vez isentar-me de escrever sobre um tema que irá muito provavelmente ter um fortíssimo impacto nos mercados financeiros. Mesmo que esta minha visão tenha muito de hipotética, e esteja ainda longe de poder ser confirmada ou desmentida.
Situação política
Como previsto, Cavaco indigitou Passos Coelho. Como previsto, a Esquerda uniu-se para eleger Ferro Rodrigues. Não tenho dúvidas que a Esquerda unida vai mesmo rejeitar o programa de governo, trazendo novamente um presidente insuficiente para a mesa das decisões. É sabido que não podem ser marcadas novas eleições, havendo apenas duas hipóteses para Cavaco. Ou indigita um governo de Esquerda, com ou sem ministros do PCP e BE, ou pressiona a formação de um governo de gestão. Apesar de haver algum consenso opinativo relativamente a esta segunda possibilidade, eu acredito que a primeira acabará por prevalecer. O PS irá mesmo governar, porque a coligação não aceitará fazer parte de um governo de gestão. 
Os mercados
Os mercados estão cientes do que está a acontecer em Portugal, não tenham ilusões. Vale-nos (como valeu durante grande parte da legislatura anterior) o suporte do BCE. Infelizmente para um governo de Esquerda, existe actualmente um sentido democrático muito limitado no centro de decisão Europeu. E não tenho dúvidas que tudo será feito para tirar o tapete ao tal governo de Esquerda. Até para que (tal como aconteceu na Grécia) o falhanço de uma iniciativa alternativa seja tido como exemplo nos restantes países Europeus. Viram o que aconteceu ao Podemos depois do golpe no Syriza? A receita resultou, foi premiada com reforço positivo… então é provável que seja repetida!
Não é necessário muito para, nessas condições, atirar um governo pela berma da estrada. Basta que a dívida nacional seja considerada demasiado arriscada para entrar no programa de recompra, e os custos de financiamento começam a subir exponencialmente. E a bolsa, com especial incidência para a banca (devido à exposição à dívida), regressará à trajectória descendente. Isto para nem falar no impacto que uma subida de 30% teria na cadeia salarial. Não são só os salários mínimos que aumentam, não tenham ilusões! Todos os níveis restantes têm de ser mexidos, o que nesta fase poderia ser devastador para a maioria das empresas nacionais. Se estes cenários se concretizarem, o PS será pressionado a fazer algo de limitado consenso político à Esquerda. Seja o que for, o PCP dificilmente estará de acordo. E se a instabilidade governativa regressar, deixa de haver condições de governabilidade. 
Em resumo
É cada vez mais provável que o PS venha mesmo a formar governo com apoio do  BE e PCP. Essa solução não terá condições para governar durante mais de um ano, porque a determinada altura acabar-se-ão as reservas de capital e o consenso político. A realidade enfrentará nessa altura a demagogia, e o PCP roerá a corda e sairá do acordo. O mercado financeiro nacional enfrentará grande instabilidade, porque (ao contrário do que o PS defende) é necessário um período de tempo moderado (pelo menos 2 anos) para que o choque de consumo provocado pela subida dos rendimentos comece a surtir efeitos reais na economia. No meio de todo este cenário cinzento, só gostava de estar redondamente enganado e ver o país florescer com quem quer que fosse no governo. Mas, enquanto os políticos olharem mais para o seu próprio futuro do que para o bem-estar geral, dificilmente sairemos da cepa torta. 

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