Portugal e o futuro

Cristiano Santos

Não, este artigo não é sobre o livro do Spínola. Também não é sobre o futuro, é mais uma análise sobre o passado recente, de forma a que não se cometam os mesmos erros no futuro. Portugal e Irlanda, dois países com a mesma moeda, países periféricos, rodeados em boa parte da sua fronteira pelo mar. Em 1995 os indicadores económicos da Irlanda e de Portugal eram bastante semelhantes. Mas entretanto a Irlanda deu um salto tremendo na riqueza criada e na riqueza média por cidadão e Portugal parou no tempo. Porquê?

Actualmente o salário médio na Irlanda é de 2479 euros e Portugal 925 euros (dados de 2017). Como foi possível chegar a tal diferença em pouco mais de 20 anos? Em 1995, a receita (fiscal e contribuições sociais) cobrada pelo Estado português era de 36,2% do PIB. Em 2016 foi de sensivelmente 43% do PIB (impostos sempre a subir). Na Irlanda, no mesmo período, caiu de 36,0% para 31,1%, (impostos a descer). A despesa total do Estado português em 1995 era de 42,6%. Em 2016 foi de 46,6%. Os números comparáveis para a Irlanda são 40,8% e 32,4%. E a dívida pública? Em Portugal, era de 58,3% em 1995 e em 2016 estava nos 126%. Na Irlanda também subiu, mas de 78,5% para 89,1% (percentagem do pib). Na Irlanda os impostos sobre os lucros das empresas são de 12,5%, já em Portugal atingem os 31,5%, um dos valores mais alto do mundo! Isto explica tudo? Não, mas explica muita coisa. A Irlanda optou pelo liberalismo económico. Portugal seguiu o socialismo.

Desde 1995 que Portugal é quase sempre governado pelo PS. Pelo meio tivemos um curto período com as inconstâncias do Santana Lopes e depois o Passos Coelho numa governação condicionada pela troika e pela falência Socrática. De resto, foi sempre PS. Entretanto em 1999, apareceu um novo partido da esquerda radical com expressão eleitoral, o Bloco de Esquerda. De repente, os 10% de força na esquerda radical passaram a ser 12%, 16%, até 20%. Hoje, praticamente 20% do nosso parlamento tem forças de esquerda radical, que influenciam toda a governação e lutam pelos trabalhadores. Ou seja, já de há muito que Portugal devia ser o paraíso dos trabalhadores. Isto, se as políticas defendidas por eles realmente resultassem. Porém o que assistimos é precisamente o contrário. Portugal teve a primeira década do milénio completamente perdida, sem crescimento, sem direitos, sem aumentos reais de salários, sem nada. Entre 2000 e 2017 a produtividade aumentou a uma taxa média anual de 0,7%, o terceiro pior registo de toda a UE. Desde 1995 até hoje, fomos ultrapassado por 6 dos novos membros da União Europeia (Eslovénia, República Checa, Malta, Estónia, Eslováquia, Lituânia, todos hoje mais ricos que nós) e não ultrapassámos ninguém.

Enfim, o registo é confrangedor, para não dizer dramático. Portugal e o futuro é mau. Qual será o país que nos vai ultrapassar este ano? Brevemente podemos ser o país mais pobre de toda a Europa. A não ser que o rumo seja invertido.

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