Preço dos CTT fixado em 5,52€ por acção!

Tiago Esteves
O preço das acções dos CTT já foi conhecido e está a causar alguma polémica, muito devido a algum desconhecimento. Comecemos por aí… Ao contrário do que tem sido dito nos jornais económicos não é o governo que decide, per se, o preço de colocação em bolsa dos títulos.
Este preço é definido por bookbuilding, um processo que passa pelo conhecimento das ordens que os institucionais interessados em participar no processo emitem, decidindo-se depois com base nessas ordens o preço final. Se o governo recebeu de entre os institucionais ordens suficientes para uma colocação em bolsa ao preço máximo não seria irracional esperar que o preço estabelecido fosse inferior? O que seria dito, com toda a justica, sobre a capacidade de o governo defender os interesses dos contribuintes?

Mais importante será analisar a agressiva procura institucional. Seria certamente preocupante se os investidores institucionais decidissem limitar as suas ofertas ao preço mínimo do intervalo. O que quereria dizer? “Eu fico com elas se mas derem baratinhas, como ninguém as vai querer não terão outro remédio senão aceitar!”.
Ao serem recebidas propostas situadas no preço máximo, propostas suficientes para cobrirem toda a oferta, os institucionais estão claramente confiantes quanto ao futuro dos CTT. Não avaliariam tão agressivamente uma empresa em declínio financeiro se não reconhecessem valor.

Não tenho dúvidas de que esta agressividade nas ofertas está relacionada com a licença para a constituição de um banco postal. É a única explicação para a atribuição à partida de um PER a rondar os 14, PER que compara já com os seus pares a nível internacional. A aceitação de um PER mais elevado na OPV deve-se no meu entender unicamente ao potencial futuro atribuído à margem de crescimento do sector financeiro dos CTT. E sabemos bem quão tolerante o mercado pode ser em relação ao PER quando é atribuído a uma empresa potencial de crescimento futuro. Olhem a Amazon, ou o Facebook. Ou, mais próxima, a Jerónimo Martins!

Qual o impacto do arranque a 5,52€ para a cotação?
Antes de mais importa referir que falta conhecer imensos detalhes neste processo:
– Desconhece-se quais os institucionais que terão uma posição nos CTT e qual a percentagem da empresa que cada um deles deterá (ficarei desiludido se os correios do Brasil não forem um dos principais candidatos ao domínio);
– Desconhece-se o factor de rateio final para os particulares;
– Desconhece-se a agressividade com que a JP Morgan defenderá as correcções nos primeiros 30 dias de negociação;
– Desconhece-se a estratégia que cada um dos institucionais vai tomar para tentar controlar a empresa;
– Desconhece-se se existe a possibilidade de shortar o título desde o primeiro dia de negociação.

Vamos a suposições…

– Se um dos institucionais detiver mais de 35% da empresa todos os bocadinhos contam para o domínio estratégico, pelo que faria algum sentido vermos uma mão acima da JPM a comprar acções. Este factor faria o preço subir.
– Se a cotação estiver dividida entre diversos institucionais de forma
equitativa, os pouco mais de 10% de acções que serão admitidos a
negociação por parte dos particulares nesta quinta-feira não aquecem nem
arrefecem! Isso fará com que dificilmente venham a mercado puxar pelo
preço. Por outro lado deixa em aberto o cenário de OPA, cenário que não se colocará quase de certeza nos próximos 9 meses mas que é uma realidade para finais do próximo ano.
– Se o factor de rateio ficar aquém do esperado (aposto nos 10-12), possivelmente veremos um dump no início da negociação. A profundidade da queda dependerá da agressividade compradora da JPM.

A marca psicológica estabelecida pelo intervalo pode fazer mossa entre alguns dos pequenos investidores, que depressa entram em pânico quando algo não vai de encontro ao que estabeleceram. Um investidor cauteloso terá feito as contas considerando o cenário do preço máximo e do rateio mínimo. Um investidor mais agressivo poderá estar algo alavancado, estando também agora mais sujeito à pressão das oscilações de mercado. Será este caldeirão de emoções que veremos reunido na quinta-feira, no momento de admissão à negociação. Admito que dificilmente veremos um arranque muito distante dos 5.52, admito que não faço ideia para qual dos lados irá o prato pender no final do dia. Acredito que exista bastante volatilidade no primeiro dia de negociação. Para o curto (atenção que curto prazo não é o primeiro dia) e médio prazo pouco importa o arranque, é bem mais importante o sentido da direcção no primeiro mês.

Continuo bastante confiante num primeiro mês positivo, num médio prazo lucrativo. Se é verdade que a fixação no preço máximo diminuiu a margem de lucro potencial e afastou o preço da almofada fundamental, não é menos verdade que o sinal mais positivo que qualquer título cotado em bolsa pode dar passa pela geração de procura muito acima da oferta. E a procura faz subir o preço….
Se eu não estiver enganado, em meados de 2014 poderemos já ver os CTT com um gráfico em  trajectória tecnicamente ascendente. Infelizmente engano-me imensas vezes…

Nota Pessoal: Dada a irrevogabilidade das ordens na OPV já me posso considerar accionista dos CTT. Mesmo que inadvertidamente este factor poderá de alguma forma condicionar a minha opinião.

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