Preocupação na UE e entre investidores com planos do futuro governo de Itália

Agência Lusa

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A perspetiva de um Governo populista em Itália, a terceira maior Economia da zona euro, assombrou os parceiros e investidores europeus, que receiam que o seu programa eurocético e de expansão orçamental prejudique a coesão do bloco.

As forças populistas rivais – o Movimento Cinco Estrelas (M5E), antissistema, e a Liga, de extrema-direita – comprimiram as suas agendas conflituais num programa de Governo que sugere um crescimento exponencial da despesa, que vai aumentar a carga da dívida italiana, que já é a maior da Europa, depois da Grécia, mas com poucos detalhes sobre as receitas.

Mas o que preocupa mais os economistas, outros membros da zona euro e os mercados financeiros é a atitude eurocética que os dois partidos partilham, mesmo que tenham omitido agora as referências à eventualidade de saída do euro.

Lorenzo Codogno, um antigo dirigente do Ministério das Finanças italiano, confessou que ficou “sem fala” perante as propostas no programa, adiantando que refletem “a relação complicada das partes com a Europa”.

Agora a gerir uma consultora, Codogno considerou que, “se bem que tenham posto de lado a retórica antieuropeia (…) avançam planos que colocam a Itália claramente numa trajetória de colisão com Bruxelas”.

O projeto de programa de Governo foi revelado na semana passada e está agora dependente da aprovação presidencial, que pode ser dada nas próximas horas ou nos próximos dias.

Ele inclui projetos como o estabelecimento de um rendimento básico para os italianos com necessidades e o cancelamento dos previstos aumentos do imposto sobre o valor acrescentado e a eliminação de alguns impostos sobre os combustíveis. Mas a preocupação maior vem da intenção de anular as reformas do sistema de pensões, aprovadas dificilmente pelo último parlamento.

Os efeitos económicos do programa estão estimados em 170 mil milhões de euros, equivalentes a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) italiano.

Isto iria aumentar ao já periclitante monte da dívida italiana, que ascende a 2,1 biliões (milhão de milhões) de euros, ou 132% do PIB.

Em comparação, a dívida dos EUA representa 105% do PIB e a da Alemanha 68%.

O economista Raj Badiani, do IHS Market, afirmou que estes planos, combinados com a intenção de expulsar centenas de milhares de migrantes, uma potencial reserva laboral num país em envelhecimento, podem reduzir a capacidade de Itália pagar as pensões, que equivalem a cerca de 15% do PIB.

Um esboço inicial do programa incluía um apelo ao cancelamento de parte (250 mil milhões de euros) da dívida pública italiana, o que vai contra os tratados europeus. Este apelo foi removido do programa final, mas alertou os investidores para a vontade dos dois partidos usarem políticas económicas heterodoxas.

“Uma coisa é dizer que se quer maior controlo sobre a política orçamental ou o setor bancário. Outra é falar de perdão da dívida. Isto enerva os investidores, que vão responder agressivamente, como já o fizeram”, avisou Badiani.

A Itália está a pagar 60 mil milhões de euros de juros anuais pela sua dívida, o que a torna muito vulnerável a mudanças nos mercados obrigacionistas.

O diário italiano Il Sole 24 Ore estimou que o plano do Governo poderia levar o défice para os 5,8% do PIB.

Manfred Weber, o alemão que dirige o grupo dos partidos de centro-direita no Parlamento Europeu, já pediu aos partidos da possível coligação italiana que terminem a discussão sobre o euro e as suas regras.

“Isto é brincar com o fogo, porque a Itália está muito endividada”, disse na segunda-feira Weber à agência noticiosa alemã DPA.

“Ações irracionais ou populistas podem provocar uma nova crise do euro”, considerou.

O líder da Liga, Matteo Salvini, minimizou estas preocupações.

Mas Codogno avisou que o programa de Governo contém “objetivos irrealistas e planos de despesas que vão bem além do que é possível”

“É um sonho. Mas tenho de dizer que parece mais um pesadelo do que um sonho”, concluiu.

RN // ARA

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