Qual o impacto que a decisão do BCE poderá ter nos mercados financeiros?

Tiago Esteves
Hoje o Sr. Draghi surpreendeu tudo e todos ao colocar em causa o poder reinante da Alemanha na zona Euro! Ah, e também cortou a taxa de juro para 0,05%. O corte da taxa de juro, dos anteriores 0,15% para 0,05% acabou por ser algo sobretudo técnico, e de pouco relevo em termos práticos. Ainda há pouco tempo os cortes eram de quarto de unidade, pelo que já há muito que entramos no campo do simbólico. A grande surpresa foi mesmo política! Contra a explícita vontade da Alemanha, dona e senhora da Europa nos últimos anos, o Sr. Draghi avançou com prazos mais concretos e valores hipotéticos para um programa de recompra de activos semi-tóxicos. Outubro e 500 mil milhões, é esse o valor (ainda não confirmado) e o prazo para o início do programa.

Ora, ao contrário do que à primeira vista possa parecer, este programa é apenas um parente pobre dos QE’s aplicados pelos EUA. Na minha opinião, o que o BCE pretende fazer está muito mais vocacionado para a economia real, enquanto o programa de estímulos Americano era em grande parte direccionado para a impulsão dos mercados financeiros. Enquanto membro do grupo de cidadãos a quem caberá pagar parte da factura gerada com base nesta aventura política, confesso que é uma solução que me agrada mais. É dinheiro que entrará na economia real, ou pelo menos assim se espera, e não na capitalização das grandes empresas.

Enquanto investidor no mercado de capitais, não espero que este programa promova nos mercados financeiros a revolução que promoveram os QE’s Americanos. Pelo menos se tivermos em consideração os ainda provisórios moldes do programa. Além da economia real, quem poderá sair daqui beneficiado? Volto a repetir, importará conhecer melhor os moldes em que virá a acontecer o programa de compra de activos… mas parece-me que os bancos com exposição a activos imobiliários nos seus balanços poderão fazer parte dos beneficiários de primeira linha. No mesmo grupo estarão as empresas com forte componente exportadora, pela expectável depreciação do Euro face aos seus pares.

Irão os mercados europeus valorizar-se de forma insana nos próximos meses, à custa deste programa de estímulos? Não o espero, pelo menos para já. Uma sustentação ascendente sim, uma revolução de sentimento ainda não. Tal acontecerá se o Sr. Draghi partir para o campeonato dos crescidos e promover um programa de QE’s à Americana. Mas, enquanto cidadão europeu razoável e calculista, só posso esperar que tal não venha a acontecer. E penso que os líderes políticos me vão fazer a vontade. Não porque concordem que se estaria a chutar para a frente uma bola de neve, mas porque não se entendem entre eles. Politicamente, a Europa está dividida… e não é só em termos ideológicos! Se tantas vezes se critica a senhora Merkel por ser a dona da Europa, parece-me que em muitas situações beneficiaríamos de uma liderança consensual, um maestro que definisse o rumo. É verdade que ninguém (além dos Alemães) quer a Merkel nesse papel, mas não é menos verdade que já era tempo de aparecer um líder carismático e unificador para dar um rumo à  Europa.

Lista de Comentários

  • Anónimo 05 / 09 / 2014 Reply

    Mais um belo artigo Tiago, mas acho que convém salientar que a economia e modo de financiamento da mesma é bastante diferente nos eua e europa.
    Não sou nenhum expert no assunto, mas os americanos olham para a bolsa e mercados de um modo diferente e como fonte de financiamento. Repara nas startups que por lá aparecem e os programas de trocas de acçoes, opçoes sobre acçoes que lá existem e cá praticamente não existem.
    Podemos olhar para o mercado tecnológico e ver a abismal diferença ao nível de output. Não será por essa cultura diferente, que procura financiamento muito mais nos mercados em vez de bancos /etc, que o QE nos EUA foi virado para os mercados?
    abraço nuno

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 05 / 09 / 2014 Reply

    Olá Nuno,
    Tens toda a razão, concordo a 100%. Os próprios cidadãos americanos vêem o mercado de capitais como uma fonte de poupança e investimento de forma muito mais séria do que acontece na Europa. Ao estimular o mercado de capitais, os EUA injectaram dinheiro na economia real. Nós temos uma cultura diferente, daí a diferença na direcção dos estímulos. Isto para dizer que não se pode esperar na Europa o que aconteceu com os mercados americanos, já que tanto a realidade como as escolhas políticas são distintas

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