Se queremos prosperar, temos de voltar a ser navegadores!

Tiago Esteves
Uma das mais importantes características do povo português é a capacidade de improviso. É inegável, quase consensual! Experimentem perguntar a quem passa na rua o que acham dos portugueses…. ouvir-se-à vezes sem conta que somos “desenrascados”. É uma palavra tão típica que não tem tradução directa para nenhuma das línguas que eu conheço. Se há um problema, nós improvisamos uma solução. Se há regras para cumprir, isso é que já é mais complicado…
Somos um povo marcadamente voltado para o improviso e para a criação, desde há séculos! A nossa história está repleta de exemplos, e não me refiro apenas aos Descobrimentos!

Então, pergunto eu, por que motivo passamos os  últimos dois séculos a desvirtuar a maior benesse do nosso povo e adoptamos um sistema económico baseado na prestação de serviços e replicação? Por que motivo somos um dos países da UE a 27 que mais gasta em educação (6,35% do PIB, Fonte: Eurostat) e um dos que menos gasta em educação para a investigação e desenvolvimento (0,1% do PIB, Fonte: Eurostat)?

A resposta parece-me óbvia, andamos à deriva… Não fazemos ideia do que queremos, de onde estamos, onde queremos chegar. Culpar um governo, ou vários, pode ajudar a identificar uma das causas do problema mas não é sequer o primeiro passo para a sua resolução. Se hoje estamos mal, e estamos, a culpa é de todos nós. E da mesma forma caberá a cada um de nós fazer algo para alterar o sentido do nosso futuro.

Insisto, a resposta é simples, temos de voltar a ser navegadores! Não no sentido textual, ou pelo menos não totalmente (se bem que começarmos a aproveitar melhor a nossa orla costeira também não seria descabido). No sentido figurado, representativo da revolução que impusemos ao mundo com base no nosso espírito aventureiro e destemido! Não vamos conseguir produzir têxteis a um preço mais baixo que a China, eles usam mão de obra infantil! Não vamos conseguir produzir fruta mais barata que a Espanha, os nossos montes e vales levam-nos ao jogo da agricultura de escala com 5 pontos de desvantagem logo na casa partida! Não vamos conseguir produzir electrodomésticos de forma mais eficiente que os Alemães, eles são robôs de carne e osso! Então vamos aproveitar o único factor que nos diferencia do resto do mundo, a nossa criatividade produtiva… Vamos produzir com diferenciação, vamos subir preços e dar razões a quem compra para seleccionar o que é nosso!

A Siemens foi uma das primeiras empresas a descobrir o potencial de que eu falo. Há uns anos foi feito um concurso entre todas as sedes da Siemens espalhadas pelo mundo para a instalação de um centro de investigação e desenvolvimento. Após uma luta muito renhida com a Índia, Portugal foi escolhido para a instalação do centro de investigação para o futuro de uma das maiores multinacionais do mundo! E fomos escolhidos principalmente por nos ter sido reconhecido este extraordinário potencial de inovação.
Recentemente a empresa investiu milhões no nosso país num projecto, o hospital do futuro. Este hospital está a testar e a desenvolver tecnologia que será utilizada nos hospitais de todo o mundo daqui a 30 anos!

Porque é que esta empresa viu algo no nosso país que nós próprios temos ignorado? Provavelmente porque a nossa baixa auto-estima não nos permite valorizar o que de melhor temos. E a rede de informação que nos rodeia também não ajuda no processo. Quantas pessoas estão informadas acerca destes importantes projectos que a Siemens está a desenvolver no nosso país? Certamente menos do que as que sabem que o nosso ex primeiro-ministro andou a estudar Filosofia em França.
Ao não valorizarmos as nossas melhores características somos incapazes de transmitir a sua importância a todas as outras multinacionais que vêm a Portugal apenas em busca de mão de obra barata. E o ciclo repete-se.

Voltemos à investigação aplicada, aquela que para mim é a chave deste enigma. O que é fazer investigação em Portugal? Resposta simples: é escrever artigos para completar um grau académico. Para que servem esses artigos? Para nada, geralmente acabam no fundo de uma gaveta, cheios de pó. Qual é o papel estratégico do estado neste processo? Apoia este desperdício, pega nos investigadores de teoria e coloca-os nas universidades a transmitirem investigação de teoria às gerações vindouras.

Hmm… qual seria então a solução para este problema? Quem sabem apoiar apenas a investigação produtiva e dar seguimento somente aos projectos viáveis… E, mais importante que tudo, estimular a interacção entre os investigadores e as empresas, em vez de se bloquearem competências com cláusulas de exclusividade!! Repare-se no gráfico abaixo, da Eurostat. Somos um dos países da Europa com menor número de investigadores nas empresas, lado a lado com países como a Grécia, a Lituânia e a Estónia… Notar-se-à aqui um padrão?

Para terminar, que a reflexão já vai longa, permitam-me que deite para o ar uma ideia… Já que os serviços estatais terão de ser desalavancados e os seus trabalhadores reabilitados, por que não reabilitá-los para o desenvolvimento sustentado? A investigação e o desenvolvimento não têm de ser obrigatoriamente desenvolvidos por doutorados e académicos, pelo menos não de forma exclusiva. Canalizem-se os poucos recursos que ainda nos restam para o desenvolvimento e protecção de novas ideias. Criem-se grupos de trabalho (trabalho como sinónimo de acção, não apenas de troca de ideias) para descobrir e aplicar factores de diferenciação em todas as áreas do nosso tecido empresarial. Se temos de mudar, vamos aproveitar e mudar para melhor. Se ninguém tivesse construído o primeiro barco, ainda hoje a América estaria por descobrir…

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