Sentimento de Mercado – Bons resultados dão maus resultados?

Marco Silva

Marco Silva

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Antes dos programas de estímulos que se seguiram à crise financeira de 2007 e que originaram uma dependência dos investidores em juros baixos associados a uma bolha de liquidez sem precedentes, a regra era relativamente simples, se as empresas apresentavam bons resultados o mercado subia. Contudo nos últimos anos e assim que a economia norte-americana começou a caminhar num trajecto de crescimento robusto, o mercado começou a reagir de forma inversa às boas notícias com receio de que a zona de conforto absoluto iria eventualmente terminar. O ano passado no entanto a partir do momento em que os earnings começaram a revelar um crescimento continuo e substancial dos lucros a regra foi um pouco diferente, nomeadamente foi sempre a subir, qualquer que fosse a qualidade dos números, bons, maus ou assim assim, pouco importou, no final do dia existia sempre um “fundamento” para que o mercado terminasse a valorizar, daí que Wall Street tenha estado tanto tempo sem uma correcção diária minimamente significativa.
Ontem a norma parece ter voltado a ser bons resultados económico-empresariais causam receio de juros mais altos, levando a maus resultados finais nos índices, em contraponto com a ideia que referi no inicio da semana, de que os bons resultados poderiam impulsionar os indices norte-americanos para máximos ainda mais elevados. O facto do FED ter aberto a porta à quatro subidas em vez das três previstas anteriormente foi o ponto chave para a viragem de sentimento, ao qual se tem juntado uma subida da taxa de juro das obrigações norte-americanas a 10 anos, que atingiu os 2,8%, isto porque com o aumento previsto dos juros as obrigações têm sentido uma pressão vendedora extra, visto andarem quase sempre em sentido inverso relativamente à taxa de juro associada. E na quinta-feira foi isso mesmo que aconteceu, numa fase já de si com um tom diferente da semana anterior, devido às quedas de segunda e terça-feira, os bons resultados empresariais em conjunto com dados económicos, que indicam um mercado de trabalho muito robusto nos EUA, e que a inflação está a subir nomeadamente nos preços ao produtor e nos custos laborais, foram o suficiente para que a volatilidade fosse o principal actor, com a incerteza a dominar, pois de um lado estão os que ainda acreditam em vôos mais altos, mas existem agora outros que preferem retirar algum risco de cima da mesa, após um ano fantástico.
Mas apesar da aparente força da economia e dos resultados empresariais, o certo é que o U.S dólar teima em continuar numa trajectória descendente, em parte por causa das declarações há uns dias do secretário do Tesouro, mas também porque da reforma fiscal aprovada por Trump vai sair um dano colateral, a dívida soberana dos EUA vai aumentar em função de deficits orçamentais que se estimam atinjam $1,7 triliões em 10 anos, facto que tem levado o Tesouro norte-americano a aumentar o volume de nova dívida que tem vendido, para além da que se vence, nomeadamente nas emissões a 10 e 30 anos. Devido a isso o U.S Dólar recuou mais -0.5% permitindo ao Euro atingir máximos de 3 anos nos $1.2456. Para hoje as atenções estarão nos non-farm payrolls e desta feita a incerteza é mais elevada quanto à reacção que o mercado irá ter com bons ou maus dados devido ao que referi anteriormente, quase garantido é volatilidade acima da media dos últimos meses.

A análise ao sentimento de mercado é patrocinada por Activtrades

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