Sporting: Analistas consideram que adiamento do reembolso aos obrigacionistas foi “sensato”

Agência Lusa

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Os analistas consideram que a proposta de adiamento por seis meses do reembolso aos obrigacionistas proposto pela Sporting SAD foi uma decisão “sensata”, tendo em conta o atual contexto de crise que afeta o clube.

“Este adiar é o mais sensato na minha opinião nesta altura. Estar a arriscar uma emissão que depois não tenha sucesso, acabaria por ser pior”, disse em declarações à agência Lusa o gestor da corretora XTB, Tiago da Costa Cardoso.

A Sporting SAD anunciou hoje, em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que vai propor o adiamento de seis meses do reembolso aos obrigacionistas, em assembleia-geral (AG) de obrigacionistas, a realizar em 04 maio.

Nesta proposta, a SAD ‘leonina’ dá conta da intenção de “modificar os termos e condições das obrigações” denominadas ‘Sporting SAD 2015-2018’, nomeadamente a “data de reembolso de 25 de maio de 2018 para 26 de novembro de 2018”.

De acordo com Tiago da Costa Cardoso, os clubes de futebol portugueses têm muito este hábito de fazer aquilo a que se chama “bola de neve de empréstimos obrigacionistas”, ou seja, pedir um empréstimo obrigacionista para reembolsar o empréstimo anterior.

“Os clubes conseguem sempre uma procura muito grande neste tipo de instrumentos, o que leva a conseguir taxas de juro mais baixas, o que é excelente”, explicou.

“Neste momento, pode haver o caso de um dos principais obrigacionistas ou um grupo ter referido que não se sentia confortável para realizar a operação e então pediu o adiamento. É o mais correto”, referiu.

Na mesma linha, o diretor de negociação do Banco Carregosa, João Queiroz, lembra que, em todo o caso, há sempre que incluir a “componente emocional” deste tipo de investimentos e, no caso de falhar, o clube teria de encontrar uma forma de reembolsar os obrigacionistas, por exemplo através da constituição de um evento de crédito, o que “colocaria o Sporting numa situação mais complicada”.

As emissões obrigacionistas são, segundo João Queiroz e Tiago da Costa Cardoso, um instrumento muito utilizado pelas três sociedades ligadas a clubes de futebol (Porto, Sporting e Benfica) e destinam-se normalmente a investidores individuais (adeptos, simpatizantes, sócios do clube), mas não só, investidores estratégicos ou os que estão à procura de taxas de rendibilidade elevadas (‘yelds’), já que este tipo de investimento paga um juro acima do oferecido pelos depósitos e tem-se apresentado como um investimento historicamente seguro.

O que estava prevista para maio era uma emissão obrigacionista de 30 milhões de euros, que serviria para reembolsar uma operação semelhante realizada em 2015. O que o Sporting irá propor em 04 de maio aos obrigacionistas, num contexto de crise interna do clube, é que esse pagamento seja adiado para o último trimestre do ano.

Sobre o comportamento das ações da SAD do Sporting, que na quarta-feira encerraram inalteradas nos 0,80 euros, ambos os analistas concordam que os mercados não tiveram até agora nenhum tipo de reação face às polémicas que envolveram o plantel e o presidente do clube na semana passada, sublinhando que os congelamentos automáticos das ações que têm havido são “normais” neste tipo de ativos.

“Há muita especulação sobre tudo isto. As ações são congeladas porque foram negociadas mais ações muito acima do que o que é normal e porque os critérios de suspensão suspendem automaticamente”, disse o gestor de ativos da XTB.

A bolsa tem um mecanismo de segurança que trava as negociações quando pode estar iminente uma variação superior a 10% (negativa ou positiva) em relação ao valor de referência.

Trata-se de algo que acontece com alguma regularidade em empresas cotadas com pouca liquidez e dispersão bolsista, como é o caso da SAD do Sporting, segundo explicou na segunda-feira fonte da Euronext Lisbon à agência Lusa.

Sobre a rentabilidade deste tipo de ações, o diretor de negociação do Banco Carregosa considera que “tudo depende do momento de entrada”, mas avisou que tem de ser um investidor informado e que possa assumir o risco.

“Tem de ser um investidor que conhece bem e acompanha bem o plantel, um investidor muito informado e consciente do potencial de risco, o potencial dos atletas que compõem o plantel e todos os cenários que lhe são relevantes”, disse.

A SAD do Sporting recorda no comunicado de hoje que as anteriores emissões obrigacionistas foram sempre realizadas em novembro, à exceção das ocorridas em maio de 2015, realizadas no âmbito da reestruturação financeira do grupo Sporting em 2014, assegurando a manutenção dos restantes termos e condições, nomeadamente quanto ao pagamento de juros, acrescendo, com o adiamento, mais um semestre para o reembolso.

Esta emissão obrigacionista ocorreu entre 07 e 20 de maio de 2015, perfazendo até seis milhões de obrigações até 30 milhões de euros, com um valor nominal de cinco euros, a taxa de juro de 6,25%.

A AG de obrigacionistas foi convocada para 04 de maio, pelas 18:00, no Estádio José Alvalade, em Lisboa, ficando agendada nova reunião, em caso de falta de quórum, para 20 de maio, à mesma hora e no mesmo local.

Na terça-feira, a Sporting SAD tinha solicitado a convocação de AG de acionistas e obrigacionistas, admitindo que as recentes polémicas no clube prejudicaram a emissão obrigacionista de 30 milhões de euros.

Críticas do presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, à equipa de futebol após a derrota com o Atlético de Madrid (2-0), na primeira mão dos quartos de final da Liga Europa, motivaram uma reação do plantel e a abertura de duas dezenas de processos disciplinares, que, entretanto, foram retirados pela administração da SAD ‘leonina’.

O sucedido deu também lugar a uma crise institucional, depois de o presidente da Mesa da AG do clube, Jaime Marta Soares, ter afirmado que Bruno de Carvalho não tinha condições para continuar, antes de a Holdimo, maior acionista externo da SAD, ter solicitado uma AG para debater a situação interna.

ICO (JP) // CSJ

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