Uma introdução aos princípios de Investimento em Valor

Guilherme Neves

Neste artigo serão apresentados os princípios que regem o investimento em valor, e que guiarão as futuras publicações do Guilherme Neves. A base das análises que serão postadas neste website assentarão em análise fundamental, associada aos princípios de Value Investing. Esta corrente de investimento baseia-se essencialmente no estudo do valor dos negócios subjacentes a cada empresa, combinado com a astucia mental de saber comprar abaixo desse valor, e saber esperar para vender expectavelmente acima do seu valor intrínseco.

Esta corrente de investimento teve em Benjamin Graham o seu principal impulsionador, tendo sido conhecida pelas aulas que lecionava na universidade de Columbia nos EUA e pela Investment Partnership Graham-Newman, cujo aluno mais famoso e único a ter um A+ foi Warren Buffet. As duas principais publicações de Graham, Inteligent Investor e Security Analysis, moldaram aqueles que seriam os princípios do investimento em valor. A sua base necessita de ser contextualizada, já que surgiu no início dos anos 30, na ressaca da grande depressão. Esta passava por analisar as demonstrações financeiras das empresas, e procurar comprar empresas por um valor inferior, ao seu net working capital (ou seja, ao fundo de maneio deduzido das dívidas). O autor evoluiu posteriormente para o aconselhamento da compra de negócios estáveis, com balanços sólidos, com um track record de rentabilidade, e com uma relação preço vs lucro entre baixa e moderada.

Em suma, a definição de investimento para Benjamin Graham passava por comprar negócios por um preço que desse margem de segurança ao comprador face ao seu valor intrínseco. Será esse o princípio a aplicar nas análises que serão aqui apresentadas, e que terão como foco a apreciação de capital no longo prazo.

Para Graham, An investment operation is one which, upon thorough analysis, promises safety of principal and a satisfactory return. Operations not meeting these requirements are speculative. Foi precisamente este estilo de investimento que inspirou Warren Buffet na construção das suas partnerships, e que o levou inicialmente a procurar empresas que negociassem abaixo do seu valor contabilístico (as chamadas Cigar Butts). Um desses exemplos é a Berkshire Hathaway, um negócio que cotava em bolsa abaixo do seu valor de liquidação, e onde Buffet comprou e usou os recursos da empresa para investir noutros setores de atividade, como os seguros ou os rebuçados, entrando mais tarde na Coca-Cola com 25% do total dos ativos da Berkshire, vindo o original negócio têxtil a encerrar em 1985 por não ser competitivo.

É precisamente nesta fase que Buffet começa a colaborar com o amigo Charlie Munger, que levou Buffet a alterar a sua política de investimento, passando a procurar empresas com moats (vantagens competitivas sustentadas) após olhar para os princípios do livro de Philip Fisher, Common Stocks and Uncommon Profits, onde é posto um maior foco em empresas com possibilidades de crescimento e com diversos pontos-chave a verificar pelo investidor. Exemplos desses pontos-chave são Investimento em R&D, honorabilidade da gestão e capacidade de substituição da mesma dentro da empresa, dimensão e estabilidade das margens de lucro, potencial de crescimento do pipeline de produtos, relações laborais, sistemas contabilísticos e de controlo de gestão e um outlook de longo prazo em termos de rentabilidade.

Assim, serão analisados essencialmente dois tipos de empresas: as “value” e as “growth at a reasonable price”. Ou seja, empresas estáveis a cotar a múltiplos acessíveis, ou empresas com potencial de crescimento, em ambos os casos a cotar a um preço justo em face do seu potencial de geração de caixa em termos operacionais, após pagamento de juros e Capex de manutenção. Exemplos de empresas que poderão ser analisadas (não se estando de momento a afirmar que estão baratas ou caras) são: ING, Ibersol, Navigator, EDP, Jerónimo Martins, Estoril Sol, Google, Apple, Facebook, Daimler, BMW, KBC, Unilever, Henkel, Meliá, AB Inbev ou Nike. Por oposição, empresas como a Tesla, Pharol, Netflix não serão analisadas simplesmente porque não geram presentemente dinheiro, sendo investimentos meramente especulativos, e o objetivo desta rúbrica passará sempre por analisar negócios com capacidade de gerar cash-flow em termos recorrentes e cujo preço ofereça margem de segurança face ao valor gerado e às perspetivas de crescimento do mesmo.

Assim, o fluxo gerado pelas operações de uma empresa após pagamento de juros e Capex de manutenção, poderá ter pelo menos um de quatro potenciais destinos: reinvestimento na expansão de negócio, redução de divida, e recompra de ações próprias ou distribuição de dividendos, devendo ser escolhido aquele que maximizar a criação de valor para o acionista no longo prazo.

Para terminar, deixam-se 14 sugestões de leitura que me serviram de inspiração ao longo do tempo e que poderão ser úteis para quem queira desenvolver uma linha semelhante de análise:

Margin of Safety (Risk-Averse Value Investing Strategies for the Thoughtful Investor)

Outsiders (Value Creation Strategies)

Shoe Dog (Entrepreneurship)

Intelligent Investor (Value Investing)

Common Stocks and Uncommon Profits (Growth Investing)

One up on Wall Street (Growth investing)

Stress Test (Politics, Economics and Banking)

Invirtiendo a Largo Plazo (Value Investing)

Barbarians at the Gate (LBO& Private Equity)

End of the Alchemy (Money and Banking)

Valuation Measuring and Managing the Value of Companies (Valuation)

How you can be a stock market genius (Special Situations Investing)

Blue Ocean Strategy (Strategy)

Good to Great (Strategy)

Lista de Comentários

  • Filipe Pereira 20 / 09 / 2017 Reply

    Boa tarde, óptimo texto.

  • ValeAquilino 21 / 09 / 2017 Reply

    Olá Guilherme, Boa tarde daqui dos Açores.

    Gostei da introdução, pena as tuas sugestões serem todas para Inglês.

    Fico à espera das análises que virão certamente, mas principalmente para “papéis” portugueses, também temos alguns bons. Muito cheios de “engenharia” se bem me parece.

    CumPrim/
    valeaquilino

  • Rui Gonçalves 21 / 09 / 2017 Reply

    Muito bem escrito Guilherme, parabéns.

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