Valerá a pena comprar acções da Espírito Santo Saúde?

Tiago Esteves
Andando o mercado numa fase eufórica já vai para dois anos, as OPV’s sucedem-se. Desta vez é a Espírito Santo Saúde que vai ser colocada no mercado, aproveitando a onda optimista sob o mercado. Demorei um pouco a manifestar-me sobre este assunto porque estou pouco ou nada interessado neste negócio. Respondendo desde já aos que não tenham tempo para ler todo o extenso e aborrecido post: Espírito Santo Saúde? Para mim não, obrigado.

O grupo Espírito Santo está a sofrer com falta de liquidez e esta alienação vem na direcção da política de vendas a que temos vindo a assistir nos últimos meses. Ainda assim, esta venda tem pouco de desesperada, soando claramente a manobra “à Belmiro de Azevedo”. O preço de colocação em bolsa variará entre os 3,2 e os 3,7 euros, valor que me parece um claro exagero. Partindo do lucro estimado para o ano de 2013 a rondar os 12 milhões de euros e assumindo o preço superior do intervalo para cálculo da capitalização, a Espírito Santo Saúde viria para o mercado com um PER a rondar os 31!! Considerando a anunciada política de dividendos de 25% ao ano, o negócio demoraria 120 anos a pagar-se por esta via. Se descontarmos a fiscalidade, esse prazo passaria para 172 anos. Que perfeito absurdo, está descoberta a Amazon portuguesa…

Conseguiríamos justificar este PER irracional com um fantástico crescimento financeiro potencial do grupo. Mas se o negócio não sair de Portugal dificilmente o tal crescimento financeiro fantástico poderá vir a ocorrer. Especialmente se considerarmos que teremos muito em breve e muito provavelmente políticas socialistas que retirarão novamente protagonismo aos hospitais privados portugueses. E a ADSE? Mesmo que mantenha a sustentabilidade e mesmo que fosse alargada a quem a quisesse, é provável que a margem para os prestadores continue a cair significativamente. Mesmo que o Hospital de Loures continuasse a estabilizar a sua actividade, nada nos diz que anos como o de 2012 não se repetirão em breve. Se a fraca gestão dos hospitais públicos e a inexistente política de marketing e atractividade de “clientes” melhorar, os hospitais privados vão sofrer. Porque a oferta nos hospitais públicos continua a ser mais completa e de melhor qualidade técnica (salvo raras excepções em determinadas áreas).
E a política de expansão internacional?

O Hospital de Luanda
Um dos principais atractivos que tem sido apontado a este negócio passa pelo potencial de construção de um hospital em Luanda pelo grupo, que de facto traria um interesse acrescido ao negócio. Infelizmente ao aprofundar um pouco essa questão apercebi-me da inviabilidade desse projecto. Se é verdade que o grupo uniu esforços com a Health Care International em 2008 para tentar introduzir-se nesse projecto, pelos vistos a parceria não terá corrido da melhor forma. Citando o relatório de informação financeira publicado ontem pela CMVM, “em 2012, tendo em conta a inviabilidade do projeto, por decisão unânime das acionistas, foi extinta a sociedade”.

O agente de Estabilização
À semelhança do que ocorreu com os CTT, também neste caso foi nomeado um agente de estabilização para impedir que o preço caia muito abaixo do valor de colocação em mercado. Aprecio de forma particular a sinceridade em relação a este tema, quando se fala no prospecto sobre a acção deste agente de estabilização. Admite-se que a actividade do agente de estabilização vai permitir colocar as acções em mercado a um preço “superior àquele que poderia, de outro modo, resultar do funcionamento do mercado”. Ou seja, admitem basicamente que o preço de colocação em mercado é um perfeito exagero…

 Se o PER vier a convergir para a média do sector, a rondar os 14 nesta
altura, teremos um preço “justo” de 1,67 euros por acção. Significa
isto que o preço cairá no início da negociação? Não faço ideia… Temos o imprevisível factor estabilizador, e há
tanta gente iludida neste momento com a possibilidade de comprar acções
de uma empresa na área da saúde que nem sequer olha para o preço. E se houver muita gente a comprar o preço sobe!
Entre
comprar uma caipirinha por 3€ ou comprar acções da ESS e poder-se dizer que
se é dono de uma parte do hospital da Luz, é provável que haja muita
gente a optar pela segunda possibilidade. Infelizmente acredito que
daqui a 2 anos a venda dessa acção não dê para muito mais do que uma
água natural num restaurante em qualquer esquina.

Comment List

  • NCamilo 27 / 01 / 2014 Reply

    Parabéns Tiago mais uma excelente análise.
    Nuno

  • Anónimo 27 / 01 / 2014 Reply

    Excelente iniciativa Tiago. Continua este excelente trabalho que dá aos pequenos investidores, como eu, a possibilidade de tomar decisões mais acertadas. Aproveito para dizer que acompanho as tuas análises à bastante tempo, tal como as do ulisses. Obrigado.

    R. Ribeiro

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 27 / 01 / 2014 Reply

    Muito obrigado caros Nuno e R.Ribeiro!

  • José Júlio Nunes 27 / 01 / 2014 Reply

    Olá, sou um seguidor e venho dar os parabéns pelas excelentes análises. Obrigado.

  • Arim 28 / 01 / 2014 Reply

    Olá.
    Concordo plenamente com a análise que fez. Penso que a entrada em bolsa da ESS a 3,2/3,7 euros é um valor exagerado para a empresa em questão e a possível capacidade de crescimento da ESS. Contudo, os mercados são assim… nunca sabemos como vão reagir. Para já aguardar para ver…

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 28 / 01 / 2014 Reply

    Exacto Arim. É tão imprevisível e tão em jeito de roleta que pessoalmente dispenso

  • Ricardo Pires 30 / 01 / 2014 Reply

    A analise é muito bom, mas realmente as pessoas esquecem-se do que disseram dos ctt…
    neste momento valorizarm 1€ por accção… 18%…

  • Tiago Esteves
    Tiago Esteves 30 / 01 / 2014 Reply

    As diferenças são enormes, Ricardo. No caso dos CTT tudo indicaria que seria um bom negócio, por isso mantenho ainda 1/3 de toda a minha carteira composta por CTT. No caso da ESS é um negócio perigoso e espantar-me-ia se no médio prazo se revelasse um bom negócio

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